Uma destilaria artesanal em Edimburgo paralisou seus alambiques de cobre após investir quase 7 milhões de libras. O motivo não é falta de matéria-prima — há 4.500 barris envelhecendo nos armazéns —, mas sim um excesso de oferta que sufoca o setor inteiro. O volume de uísque em maturação na Escócia saltou de 400 milhões para 1,4 bilhão de litros em uma década, estoque suficiente para três anos de consumo atual.
O novo tabaco? Investidores temem declínio estrutural
A comparação com a indústria do tabaco circula entre gestores de fundos e analistas. Não se trata apenas de um ciclo cíclico: mudanças demográficas, crise do custo de vida e uma geração que socializa mais online do que em pubs redesenham a demanda de forma permanente.
Dados da IWSR mostram que o consumo per capita de álcool nos EUA — mercado que absorve 18% das exportações escocesas em valor — caiu 11% desde 2019. Entre os que reduziram a ingestão, 20% citam o custo como razão principal, segundo pesquisa YouGov.
Pequenos produtores encurralados; gigantes controlam o ritmo
A assimetria é brutal. Diageo e Pernod Ricard detêm mais da metade do mercado e têm balanços para atravessar a tempestade — ainda que as ações da Pernod recuem 70% do pico de 2023. Já entre as 160 destilarias escocesas, até um quarto pode estar à venda, estima Duncan McFadzean, do banco Noble & Co.
Bancos retraíram crédito ao setor. O cofundador da Holyrood Distillery, Rob Carpenter, relata ofertas “absurdamente baixas” por ativos em dificuldade. Investidores estrangeiros rondam, mas compradores e vendedores discordam sobre valuation, travando fusões e aquisições.
A aposta na Índia e a reinvenção do produto
Dois vetores sustentam o otimismo dos que veem recuperação à frente:
- Mercados emergentes: a Índia, com classe média em expansão e afinidade cultural por destilados, é vista como motor de demanda de longo prazo.
- Inovação de formato: coquetéis prontos em lata, versões mais doces e frutadas (como as novas linhas da Johnnie Walker) e parcerias com celebridades — caso de Sabrina Carpenter — miram consumidores jovens e femininos.
Os primeiros sinais aparecem nos números: exportações no primeiro semestre de 2026 subiram 6% em volume (50 milhões de caixas) e 3% em valor, segundo a Scotch Whisky Association.
Tarifas, barris americanos e o alívio de julho
A tarifa de 10% imposta por Donald Trump sobre produtos britânicos derrubou exportações em 15% entre maio e dezembro do ano passado. A isenção conquistada em julho — articulada pelos governos britânico e escocês, explorando as raízes familiares do presidente na Escócia e o lobby do bourbon no Kentucky — devolveu fôlego.
O setor importa cerca de US$ 300 milhões anuais em barris de carvalho americano usados. Com custos caindo e volumes subindo, o fluxo de caixa livre das grandes melhorou: a Diageo reportou alta de US$ 463 milhões no exercício findo em junho, para US$ 3,2 bilhões. Seus estoques em envelhecimento valem US$ 8,5 bilhões.
O que observar nos próximos trimestres
Três variáveis ditarão o ritmo da recuperação: (1) a velocidade de retomada do poder de compra nas economias centrais; (2) a capacidade das marcas de converter experimentação em latas e sabores doces em fidelidade de longo prazo; (3) a disposição de capital estrangeiro para fechar aquisições a preços que vendedores independentes aceitem. Enquanto o “banco central do uísque” — nas palavras de Alastair Valpy, da Volpe & Castello — dosa a oferta, o mercado espera o próximo ciclo de alta. Quem tem caixa e estoque velho dita as regras; quem não tem, negocia sobrevivência.
