A Polícia Civil do Rio de Janeiro cumpriu mandado de busca e apreensão na casa de um ex-executivo de vendas do iFood suspeito de levar segredos comerciais para a 99Food. A operação, realizada em 16 de janeiro, expõe uma guerra silenciosa pelo controle do delivery no Brasil. O que começa como um caso isolado revela um padrão de agressividade competitiva que preocupa todo o ecossistema.
Como a operação aconteceu
O profissional pediu demissão em abril de 2024, alegando ida para a concorrente chinesa que retomava operações no Rio de Janeiro. Antes de sair, porém, teria configurado seu e-mail pessoal na máquina corporativa e baixado arquivos sensíveis. A Justiça autorizou a busca com base nas provas técnicas apresentadas pelo iFood.
O mandado mirou especificamente a residência do investigado. Não houve prisão, mas o material apreendido — computadores, celulares e discos rígidos — será periciado para rastrear o destino dos dados. A investigação corre em segredo de justiça.
O que foi levado exatamente
Segundo o inquérito, o pacote de informações inclui:
- Condições comerciais negociadas com grandes redes de restaurantes;
- Volume de pedidos e faturamento por praça;
- Estratégias de expansão e precificação para 2025;
- Dados cadastrais e de desempenho de parceiros ativos.
Esses ativos valem milhões em vantagem competitiva. Com eles, um concorrente sabe exatamente onde atacar, quais restaurantes abordar e qual margem oferecer para roubar a base.
A resposta da 99Food e o contra-ataque do iFood
A 99Food emitiu nota afirmando que o investigado não faz parte do seu quadro atual de colaboradores. A empresa reforçou ter código de conduta rigoroso, treinamentos periódicos e “tolerância zero” a dados obtidos ilegalmente.
O iFood, por sua vez, diz ter indícios de que o ex-funcionário atuou na plataforma rival. A companhia move ainda outro inquérito em São Paulo e processa uma terceira concorrente pedindo R$ 1 milhão por concorrência desleal, baseada nos parágrafos 9 e 12 do artigo 195 da Lei de Propriedade Industrial.
Não é caso isolado: a guerra fria dos apps
O cenário vai além de um funcionário infiel. Relatos de assédio a colaboradores do iFood nas redes sociais e denúncias de bônus agressivos para esvaziar protestos de motoboys mostram um ambiente tóxico. A entrada da Keeta e o retorno da 99Food intensificaram a disputa por market share a qualquer custo.
Em São Paulo, a Keeta alega que 85% dos restaurantes “puxadores de tráfego” têm cláusulas de exclusividade com iFood ou 99Food. O argumento é usado para pressionar o CADE e a justiça contra práticas consideradas anticompetitivas.
O recado do CEO e a quebra de sigilo nos EUA
Em entrevista exclusiva, Diego Barreto, CEO do iFood, classificou a conduta de empresas específicas — não do país de origem — como “revoltante”. Ele revelou que uma das investigações só avançou após quebra de sigilo de plataforma online obtida nos Estados Unidos.
“A Justiça no Brasil é lenta, mas ela chega”, afirmou Barreto. A declaração sinaliza que a estratégia jurídica da empresa passa por cooperação internacional para acessar logs de servidores estrangeiros onde a comunicação entre investigados teria ocorrido.
O que observar daqui para frente
Três movimentos merecem atenção nos próximos meses: o desfecho da perícia no material apreendido no Rio, o andamento da ação de R$ 1 milhão em São Paulo e a posição do CADE sobre as cláusulas de exclusividade. Para investidores e gestores, o recado é claro: a proteção de dados virou ativo estratégico tão valioso quanto a frota de entrega. Quem não blindar sua propriedade intelectual hoje, paga o preço amanhã.
