Economia

Ouro a US$ 5.000 e fuga de títulos: o segredo que abala o domínio do dólar…

Lingotes de ouro empilhados com gráfico de queda de títulos do Tesouro dos EUA ao fundo
Ouro a US$ 5.000 e fuga de títulos sinalizam fim do domínio do dólar como reserva global

Investidores globais estão virando as costas para os títulos do Tesouro americano, enquanto bancos centrais correm para repatriar ouro guardado em Nova York. O “porto seguro” tradicional estaria rachando?

A dívida de US$ 40 trilhões e o uso do dólar como arma geopolítica aceleram uma busca por alternativas que já muda o mapa do capital global.

O rendimento que assusta o mercado

O sinal mais claro veio do mercado de títulos. Nesta semana, o yield da T-Note de 10 anos furou a barreira dos 5%, patamar não visto desde 2007. A mensagem é direta: o mundo exige prêmio de risco maior para financiar o déficit americano.

Não é apenas teoria. O fundo soberano da Noruega — o maior do planeta — anunciou que vai reduzir posições em Treasuries para buscar retornos melhores em outros lugares. O movimento sinaliza que a paciência dos grandes credores tem limite.

A participação do dólar nas reservas derrete

Enquanto o private equity ainda corre para a bolsa americana impulsionado pela IA, a estrutura oficial de reservas conta outra história. Veja a evolução recente:

  • 2015: Dólar respondia por 64% das reservas dos bancos centrais.
  • Fim de 2025: Caiu para 56%.

Para Eswar Prasad, ex-diretor do FMI para a China, sanções financeiras transformaram a moeda em arma, forçando uma diversificação forçada. “Não há moeda rival pronta para assumir o posto”, admite o secretário do Tesouro Scott Bessent, “mas a concorrência existe”.

Ouro supera Treasuries pela primeira vez

O dado mais simbólico aconteceu em 2025: o valor total das reservas mundiais em ouro ultrapassou o montante em títulos do Tesouro americano. Neste ano, a onça troy rompeu US$ 5.000 (R$ 25,6 mil), recorde histórico.

A corrida pelo metal físico expõe um “fator medo”, nas palavras de Daniel Tannebaum, ex-OFAC do Fed de Nova York. Países europeus não confiam mais na custódia em solo americano e estão trazendo lingotes para casa. Tarifas ameaçadas contra aliados só reforçaram a desconfiança.

Tecnologia abre rotas de fuga ao sistema SWIFT

Enquanto o Ocidente debate, a China avança. O projeto mBridge — parceria com Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes e Arábia Saudita — já testa liquidação internacional via moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), mais rápido e barato que o sistema tradicional.

Paralelamente, Rússia e Índia fecharam acordo para usar CBDCs no comércio bilateral, driblando sanções. O G7 tem projeto semelhante, mas caminha mais devagar. “A tecnologia tornou contornar o dólar mais barato e fácil”, resume Josh Lipsky, do Atlantic Council.

O efeito colateral na tecnologia americana

A desconfiança não para no financeiro. Empresas europeias hesitam em adotar infraestrutura de IA dos EUA. O temor: Washington pode desligar a chave em uma disputa futura, como já fez com chips para China e Rússia. O protecionismo tecnológico vira barreira de entrada para big techs americanas no exterior.

O que observar daqui para frente

Três vetores ditam o ritmo da transição: a trajetória fiscal dos EUA (se o Congresso não estancar a dívida, yields sobem mais), a velocidade de adoção do mBridge e de stablecoins reguladas, e o fluxo de repatriação de ouro. Para o gestor ou empresário, a lição prática é clara: depender de um único sistema de pagamentos, custódia ou nuvem virou risco estratégico. Diversificar jurisdição e rails de liquidação deixou de ser opcional — virou requisito de resiliência.