O Kremlin decretou a administração temporária dos ativos russos da Nestlé e da Auchan, escalando a ofensiva sobre o capital estrangeiro desde 2022. A medida coloca duas das maiores operações ocidentais remanescentes sob controle de uma gestora obscura, sinalizando que a saída “negociada” pode ter acabado.
Mais de US$ 50 bilhões em ativos privados já foram absorvidos pelo Estado russo, segundo estimativa de 2025 do escritório NSP. A pergunta que fica: isso é pressão para reinvestimento ou o roteiro final de uma expropriação disfarçada?
O que está em jogo nas duas operações
A Nestlé mantém seis fábricas, 7.000 funcionários e responde por 1% do faturamento global — café, ração e fórmulas infantis. A Auchan, por sua vez, opera 229 lojas, emprega 24.236 pessoas e faturou 127 bilhões de rublos (R$ 7,7 bi) só no primeiro semestre de 2026.
Diferente de concorrentes que fugiram em 2022, ambas ficaram. A Nestlé cortou marcas, investimentos e publicidade, mas manteve o “essencial”. A Auchan nem isso fez. Agora, a conta chegou.
Quem comanda a transição? Ninguém sabe ao certo
O decreto nomeia a L.E.V. Management, empresa moscovita registrada em 2024, sem rastro público relevante. Dias antes, o Kommersant noticiou que a KS Logistika havia pedido a intervenção nos ativos da Nestlé.
A opacidade do administrador é padrão: o Estado assume a gestão, a propriedade formal permanece — por enquanto — mas o poder de decisão some das mãos dos donos.
Por que Suíça e França viraram alvo “hostil”
O porta-voz Dmitri Peskov citou a origem das sedes como critério. A Suíça adotou a maior parte das sanções da UE, irritando Moscou. Fontes do Kommersant apontam outro motivo: a relutância da Nestlé em expandir produção local e retomar exportações.
Há dois cenários na mesa:
- Pressão máxima: forçar reinvestimento e expansão sob ameaça de perda total.
- Saída forçada: obrigar a venda com desconto compulsório a comprador “amigo” do Kremlin, mais imposto de saída pesado.
O roteiro já conhecido: Danone, Carlsberg, Fortum
O mecanismo de “administração temporária” nasceu em decreto de 2023. Desde então, o filme se repete:
- Danone (francesa): ativos vendidos a grupo ligado ao Kremlin.
- Carlsberg (dinamarquesa): cervejarias transferidas para controladores russos.
- Fortum (finlandesa): ativos de energia absorvidos por estatais.
Em todos os casos, a administração temporária precedeu a venda a preço de liquidação. A legislação de saída endureceu: descontos obrigatórios de 50% sobre valor justo, impostos extras e aprovação governamental comprador a comprador.
O que observar daqui para frente
Três sinais dirão se isto é isolado ou o novo normal:
- Se a L.E.V. Management inicia auditorias profundas ou apenas mantém operação corrente.
- Se surgem compradores russos com perfil político para os ativos.
- Se outras “empresas essenciais” (farmacêuticas, tecnológicas, agronegócio) recebem notificações semelhantes.
Para quem tem exposição na Rússia, a janela de negociação autônoma fechou. O Estado define o tempo, o preço e o comprador. Quem não tem plano B de desinvestimento forçado já está atrasado.
