Nate Sorensen não quer ser influenciador; ele quer dizimar uma espécie. À frente da Lionfish Extermination Corp., o ex-tatuador vegano transformou a caça ao peixe-leão em um espetáculo viral que financia a própria conservação. Mas, por trás dos efeitos sonoros de videogame e dos 2,5 milhões de seguidores, existe uma ciência dura: a de que, sem intervenção humana, os recifes da Flórida colapsam.
A invasão que engorda à custa do ecossistema
Detectado na década de 1980, provavelmente após soltura de aquário, o peixe-leão vermelho explodiu nos últimos 15 anos. A NOAA alerta: fêmeas liberam até 2 milhões de ovos anuais e a reprodução ocorre a cada quatro dias. Sem predadores naturais no Atlântico, o apetite é voraz — mais de 70 espécies de presas, incluindo filhotes de predadores nativos e peixes “faxineiros” essenciais à saúde dos corais.
O resultado é uma população obesa. Sorensen relata encontrar até 75 peixes no estômago de um único exemplar e camadas grossas de gordura envolvendo órgãos. Em áreas densas, o consumo chega a 460 mil presas por acre por ano, reduzindo populações nativas em 90%. “O recife entra em colapso drástico”, resume o caçador.
Do hobby ao negócio de extermínio profissional
Tudo começou em Boynton Beach, com arpão e mergulho livre. O isolamento da Covid-19 em 2020 foi o divisor de águas: Sorensen comprou o barco Lion Slayer e um scooter subaquático para atingir recifes remotos. Com a esposa Rachel Taub e o parceiro Alex Borsutzky, a rotina atingiu 45 quilos de peixe-leão por dia.
A Lionfish Extermination Corp. nasceu como ONG: doações, merchandising e venda de exemplares grandes para restaurantes (até US$ 20 a libra) bancam a operação. A expansão geográfica veio quando a captura local caiu — hoje, a equipe varre o Atlântico de Júpiter a Key Biscayne.
Como a ‘gamificação’ virou motor financeiro
Vídeos brutos postados desde 2018 não decolaram. A virada veio com narrativa, narração educativa e edição estilo comics: “Boom!”, gráficos de quadrinhos, sound design de jogo. O algoritmo pagou pelo engajamento.
- 2,5 milhões de seguidores somados entre Instagram, TikTok, Facebook e YouTube.
- Receita de plataformas reinvestida 100% na estrutura de mergulho.
- Público “sensível” aceita a violência gráfica por entender o bem maior: cada peixe morto salva dezenas de nativos.
O conteúdo extra — moreias fluorescentes, raias, o tubarão-lixa e a garoupa-gigante “Wilbur”, embaixadora da espécie — humaniza o recife e prende a audiência.
O preço físico que o viral não mostra
Jornadas de 16 horas, dois a três mergulhos diários alternados com o parceiro. O peixe-leão carrega 18 espinhos venenosos; a neurotoxina causa dor “agonizante”, comparada a marteladas no dedo, durando horas. Sorensen já foi envenenado mais de uma vez. “Não é brincadeira”, alerta. “Sem equipamento adequado e recipiente de contenção, não caçe.”
A caça funciona? A ciência responde
A NOAA prevê crescimento populacional, mas a erradicação total não é necessária. Estudos mostram que reduzir a densidade local já permite recuperação nativa. Um único mergulhador pode cortar 90% da população em 1.000 m² em 2,5 horas. Alastair Harborne, da Universidade Internacional da Flórida, confirma: “Há evidências de que o abate seletivo reduz a densidade local”.
Políticas estaduais ajudam: nenhum limite diário, temporada o ano todo, sem licença para recreativos. A FWC contabiliza mais de 1 milhão de exemplares removidos desde 2010. O Desafio do Peixe-Leão 2023 reuniu 500 participantes e 30 mil capturas em cinco meses. Curiosamente, a caça comercial caiu enquanto a recreativa subiu.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o xadrez nos próximos anos: a expansão da espécie para águas mais frias ao norte (impulsionada pelo aquecimento oceânico), a colonização de manguezais e estuários (berçários de peixes comerciais) via água salobra, e a barreira dos 300 metros de profundidade, inalcançável para mergulhadores. Sorensen planeja levar a operação para o Caribe e sonha com um *reality show* para escalar a conscientização. A equação é simples: enquanto houver mercado gastronômico e engajamento digital financiando o arpão, a pressão de caça permanece — única ferramenta eficaz, hoje, para evitar que o “vilão” vire o único morador dos recifes.
