Economia

US$ 90 trilhões trocam de mãos: o erro que destrói fortunas familiares

Transferência de riqueza intergeracional: US$ 90 trilhões passando de baby boomers para herdeiros
A maior transferência de riqueza da história exige preparação sucessória para evitar a destruição de fortunas familiares.

Nos próximos 20 a 30 anos, cerca de US$ 90 trilhões acumulados por baby boomers e Geração X mudarão de dono na maior transferência pacífica de riqueza da história. Um quinto dos ativos globais está hoje nas mãos de pessoas com mais de 75 anos, segundo o UBS. O problema não é o volume — é como as famílias empresárias preparam quem vai receber.

Marcia Dolores, fundadora da Mardô Family House Integration, acompanha esse cenário há três décadas. Já assessorou grupos como Votorantim, BTG Pactual, C6 e o antigo Banco Cidade da família Safdié. A constatação é direta: a maioria das famílias erra ao buscar “o” sucessor ideal, ignorando que a sucessão não é de uma cadeira, mas de um patrimônio, um legado e um grupo empresarial inteiro.

O vício do retrovisor

O erro mais frequente aparece nos bastidores: o fundador quer alguém que replique seu jeito de fazer. “Ah, mas esse filho é como eu” é a frase que Dolores ouve repetidamente — e classifica como terrível. Olhar para o passado impede que a empresa se adapte a mudanças de mercado e de mentalidade.

Um caso real ilustra o risco: uma família elegeu um filho para posição-chave sem que ele tivesse as competências necessárias. Dos outros três filhos, havia perfis mais adequados, mas o pai insistiu na réplica de si mesmo. Resultado: a sucessão travou e o patrimônio ficou exposto.

O que a Geração Z realmente quer

Para entender o choque geracional, a Mardô analisou 200 projetos de vida de jovens entre 19 e 25 anos. Os números surpreendem:

  • 55% querem atuar no negócio da família
  • Mas exigem liberdade e equilíbrio — rejeitam o modelo “olho do dono”
  • Não aceitam carregar o “peso do mundo” sozinhos

Quando a riqueza é vista como fardo, ela se deprecia rápido na sucessão — ou é usada de forma pouco interessante, como alerta Dolores.

Valores invertidos: espiritualidade primeiro, dinheiro por último

Outra pesquisa em andamento revela um abismo motivacional. Para a Geração Z, o primeiro valor é a espiritualidade — entendida como conexão com algo maior e geração de impacto no mundo. O dinheiro aparece em último lugar, possivelmente porque a segurança financeira já existe.

No polo oposto, os fundadores seguem movidos por dinheiro. Mesmo com dezenas de bilhões, a mentalidade de escassez os faz buscar mais alguns bilhões, dispostos a sacrificar tudo por isso. A ponte entre esses mundos não se faz com imposição — exige envolvimento precoce.

O erro de criar “estranhos no ninho”

Muitas famílias mantêm os filhos afastados: estudam fora, veem o dinheiro entrar, desconhecem o negócio. Aos 25 anos, ouvem “agora é sua vez”. Sem preparo, tornam-se estranhos em casa, com valores dicotômicos em relação aos pais.

A consequência direta: atos de liquidez. Herdeiros buscam vender participações em negócios nos quais nunca se envolveram de verdade. Gera conflitos, desvaloriza ativos e fragmenta o patrimônio.

O que as famílias de sucesso fazem diferente

Votorantim e Moreira Salles são referências. Na Votorantim, a preparação começa aos cinco anos — de forma lúdica, adaptada à idade, mas clara sobre o que significa ser herdeiro e honrar o legado. Não se esconde a riqueza; ensina-se a responsabilidade que ela carrega.

Dolores relata um caso emblemático: uma neta de 12 anos, inicialmente excluída das discussões, foi incluída no processo. Dias depois, disse ao primo CEO: “Quero sentar onde você está”. A família passou a imaginar o futuro junto com ela.

Outro exemplo: em uma família do arroz com 22 filhos, o “desgarrado” que virou artista não trabalha na empresa, mas recebe dividendos e criou negócio paralelo ligado à arte. Atrai a geração seguinte (13 a 15 anos) para novos caminhos. Abriu possibilidades que o modelo rígido bloqueava.

Mulheres: 87% fora das decisões estratégicas

Um levantamento da Mardô expõe um dado chocante: 87% das mulheres em posição de esposas ou herdeiras em famílias de altíssimo patrimônio não participam ativamente de decisões estratégicas.

Existe um inconsciente coletivo de que a mulher não aguenta a “vida difícil e pesada” dos negócios. Muitas são blindadas — e acabam se vendo como pouco capazes. Outras, criadas como “princesas”, assumem que sempre haverá um guardião cuidando de tudo.

O risco é real: Dolores acompanha o caso de uma herdeira do agronegócio com dividendos defasados há 15 anos, enquanto a empresa cresce. Ela não sabe o porquê, não consegue cobrar. Muitas delegam aos maridos ao casar — mas o papel de conhecer o negócio, os números, a divisão de participações e o que embasa os dividendos é delas.

O que observar daqui para frente

A transferência de US$ 90 trilhões não é um evento futuro — já começou. Famílias que insistirem no sucessor único, no espelhamento do fundador e no afastamento das novas gerações verão patrimônios se fragmentarem em atos de liquidez precipitados. As que investirem em governança inclusiva, preparação desde a infância e espaço para perfis diversos (executivos, empreendedores, gestores de patrimônio, rentistas) terão chance de transformar riqueza em legado perene. O relógio corre; a próxima reunião de conselho pode ser o momento de mudar o rumo.