Meio Ambiente

O homem que virou “villain” dos recifes para salvar o oceano (e fatura milhões de views)

Nate Sorensen caça peixe-leão invasor com arpão em recife de coral no Caribe
O caçador de peixes-leão Nate Sorensen em ação para salvar recifes de coral.

Nate Sorensen não quer likes, quer cadáveres. O alvo: o peixe-leão, invasor que devasta recifes da Flórida ao Caribe. Sua arma é um arpão, uma câmera e uma estratégia de conteúdo que já rendeu 2,5 milhões de seguidores e dezenas de milhões de visualizações.

O modelo de negócio é incomum: matar para preservar. E funciona.

O predador que come até explodir

Detectado nos anos 80 — provavelmente solto por dono de aquário —, o peixe-leão-vermelho encontrou no Atlântico ocidental um buffet livre. Sem predadores naturais e com presas ingênuas, a espécie explodiu. Fêmeas botam até 2 milhões de ovos por ano. Reproduzem a cada quatro dias.

O estrago é mensurável:

  • Alimenta-se de mais de 70 espécies de peixes e invertebrados
  • Consome até 460.000 presas por acre/ano em áreas densas
  • Reduz populações nativas em até 90% em certos recifes
  • Vive 15 anos; Sorensen estima 10 peixes/dia por indivíduo (já encontrou 75 num estômago só)

“Eles ficam obesos. Gordura grossa envolve os órgãos”, diz Sorensen. “Quase passam mal de tanto comer.”

Do hobby ao império sem fins lucrativos

Tatuador e vegano (abre exceção pro peixe-leão), Sorensen caçava por lazer em Boynton Beach. A pandemia mudou a escala: comprou o barco Lion Slayer, um scooter subaquático e fundou a Lionfish Extermination Corp. com a esposa Rachel Taub, instrutora de mergulho.

Chegaram a pescar 45 kg/dia. Expandiram de Jupiter a Key Biscayne. A organização vive de doações, merch, venda pra restaurantes (até US$ 20/lb nos maiores) e — peça-chave — receita de plataformas. TikTok, Instagram, YouTube e Facebook pagam pelo engajamento. O dinheiro volta pro mar.

Gamificação que vicia (sem culpa)

Vídeos brutos não viralizaram. A virada veio com narração didática, gráficos estilo HQ, efeitos sonoros de videogame. “Boom!” a cada arpãoada. O extermínio vira gameplay satisfatório — repetitivo, viciante, livre de culpa moral.

“Até quem odeia ver animal morto curte, porque sabe que protege centenas de outros”, explica Sorensen.

O conteúdo mistura caça, educação (leis marítimas, limpeza de lixo de pesca) e “personagens” como Wilbur, garoupa-gigante que deixa acariciar há uma década — “embaixador da espécie”, diz Sorensen.

O risco que não aparece no corte final

Jornadas de 16h. Dois a três mergulhos/dia, alternando com o parceiro Alex Borsutzky. O peixe-leão tem 18 espinhos venenosos. Não matam adulto saudável, mas causam dor “agonizante” — Sorensen define como “inferno literal por quatro horas”, sensação de “martelo esmagando o dedo”. Já foi picado mais de uma vez.

Volta mesmo assim. “Eles matam desnecessariamente. Precisam de predador. Como não têm, nós somos.”

Caçadores estão vencendo? A ciência responde

A NOAA prevê crescimento populacional. Mas erradicação total não é necessária. Estudos mostram que redução significativa de densidade já permite recuperação nativa. Um mergulhador sozinho derruba 90% dos peixes-leão em 1.000 m² com 2,5h de caça.

Alastair Harborne, especialista da FIU, nota menos peixes-leão em águas rasas desde 2016. Hipóteses: pressão de caça ou equilíbrio natural pós-explosão dos anos 2000.

Políticas da Flórida ajudam: sem limite diário, temporada o ano todo, sem licença pra recreativos. FWC estima 1 milhão+ capturados desde 2010. Caça comercial caiu; recreativa subiu. O Lionfish Challenge (verão inteiro) tirou 30.000+ peixes em 2023 com 500+ participantes.

O limite que ninguém gosta de admitir

Adultos vivem a 300m — fora do alcance de mergulhadores. Ovários flutuam longe. Água salobra ameaça manguezais e estuários. Oceanos mais quentes empurram a espécie pro norte.

“Nunca vamos remover todos”, admite Sorensen. “Mas sem a gente desde os anos 80, só teria peixe-leão hoje.”

O que observar daqui pra frente

Três variáveis definem o próximo capítulo: (1) expansão pro Caribe, onde a pressão de caça é menor; (2) consolidação do mercado gastronômico — peixe-leão em sushi, taco, ceviche — criando incentivo econômico contínuo; (3) tecnologia. Drones subaquáticos e IA de detecção já são testados pra alcançar profundidades que humanos não chegam. Se escalarem, o jogo vira outro. Sorensen quer reality show. O oceano, enquanto isso, conta os cadáveres.