Economia

O segredo da equipe estável: por que este supermercado aposta no 60+

Funcionários idosos atendendo clientes em supermercado de Ribeirão Preto
Equipe 60+ do supermercado: experiência que reduz rotatividade e eleva qualidade no atendimento.

Um supermercado em Ribeirão Preto (SP) mantém 10% do quadro funcional acima dos 60 anos e colhe resultados que vão muito além da inclusão social. A estratégia reduziu a rotatividade e elevou o padrão de atendimento, segundo a gestão do estabelecimento.

O movimento espelha uma transformação silenciosa no mercado de trabalho paulista. Dados da Fundação Seade revelam que a participação de profissionais com 60+ cresceu 26% entre 2019 e 2026, adicionando 411 mil trabalhadores à força de trabalho estadual.

Comprometimento que se mede no caixa

Para o gerente Wanderlei Donizete da Silva, a equação é simples: maturidade profissional equivale a previsibilidade operacional. Ele resume os pilares observados no dia a dia:

  • Assiduidade: índices de falta e atraso significativamente menores.
  • Relacionamento: clientes fidelizados que buscam especificamente o atendimento desses caixas.
  • Mediação generacional: funcionários seniores atuam como “âncoras” comportamentais para colegas mais jovens.

“Tem clientes que preferem passar no caixa deles. Além disso, eles me ajudam a conversar com os mais jovens no quesito assiduidade”, afirma o gerente.

O que move quem já “poderia” estar aposentado

Miguel Calabria, 73 anos, operador de caixa há oito meses, define a motivação em uma frase: “ocupar a cabeça e ficar inteirado”. Gilda de Oliveira, 74 anos, há duas décadas na mesma função, adiciona a responsabilidade financeira à equação.

“Não é mais aquela coisa de 20 anos atrás, mas pego meu carrinho e venho na boa. A gente se torna mais responsável, tem mais comprometimento”, diz Gilda. Ela concilia a rotina com viagens nas férias e lazer nas folgas, desconstruindo a ideia de que trabalho e qualidade de vida são mutuamente exclusivos nessa fase.

O aviso estratégico para quem vai contratar

O consultor de carreiras Rodrigo Fonseca alerta: a inserção desse público exige preparo cultural prévio. Etarelismo — o preconceito etário — é o principal risco de execução.

“Preparar a equipe para evitar o olhar de que não têm capacidade é o primeiro passo. O mix funciona bem quando há troca real: os mais velhos ensinam resiliência e método; os mais novos, agilidade digital e novas ferramentas”, explica Fonseca.

Ele aponta ainda um vetor econômico irreversível: a longevidade ativa vem acompanhada de custos crescentes com saúde, planos e medicamentos. A complementação de renda deixa de ser opção para virar necessidade estrutural.

O que observar daqui para frente

Com a projeção de envelhecimento acelerado da força de trabalho brasileira, empresas que normalizarem a contratação 60+ hoje ganham vantagem competitiva dupla: acesso a um contingente crescente de talentos e redução de custos com turnover.

Fique atento à adaptação de benefícios (planos de saúde com coparticipação viável, ergonomia de postos de trabalho) e à formalização de programas de mentoria reversa. O supermercado de Ribeirão Preto não descobriu a fonte da juventude; apenas parou de ignorar o ativo mais subvalorizado do mercado.