Cultura

Feira do Livro de POA: 72 anos para ver mulheres negras no poder

Mulheres negras líderes da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre no palco principal
Patrona e curadoras celebram a primeira liderança 100% feminina e negra na história da Feira do Livro de POA.

A 72ª Feira do Livro de Porto Alegre entra para a história com uma liderança 100% feminina e a primeira patrona negra em sete décadas. O marco vai além do simbolismo: mexe com a economia criativa e a formação de leitores no Sul do país. Mas o que essa mudança revela sobre o mercado editorial brasileiro?

Números que explicam a magnitude do evento

Maior feira literária a céu aberto da América Latina, a edição de 2024 ocupa o centro da capital gaúcha por 17 dias consecutivos. A programação oferece mais de 700 atividades gratuitas, transformando praças e ruas em corredores de circulação de conhecimento.

O impacto econômico indireto movimenta hotéis, restaurantes e o comércio local, mas o ativo mais valioso é a formação de capital humano. Em um país onde o índice de leitura ainda patina, eventos de porte funcionam como vitrines de acervo e políticas públicas.

Duas cadeiras, um recado direto ao setor

Pela primeira vez, a presidência da Câmara-Riograndense do Livro (entidade promotora) e o patronato são ocupados simultaneamente por mulheres. Roseni Siqueira Kohlmann comanda a gestão executiva; Heloisa Pires Lima, antropóloga, educadora e escritora, assume a representação simbólica da feira.

Heloisa é a primeira mulher negra — e a segunda pessoa negra — eleita patrona em 72 anos de história. Em um estado onde 21% da população se declara negra, segundo dados do IBGE, a demora expõe uma lacuna histórica de representação nos espaços de decisão cultural.

Por que a literatura infanto-juvenil virou estratégia

A trajetória da patrona concentra-se na produção de livros para crianças e jovens com protagonismo negro. Não é um detalhe: a formação de leitores na primeira infância determina taxas de alfabetização, desempenho escolar e, no longo prazo, produtividade da força de trabalho.

Estudos do setor mostram que leitores assíduos na infância têm 30% mais chance de concluir o ensino superior. Investir em acervos diversos, portanto, não é apenas agenda social — é política de desenvolvimento econômico.

  • 72 edições até a primeira patrona negra
  • 21% da população gaúcha é negra (IBGE)
  • 700+ atividades gratuitas em 17 dias
  • 2ª pessoa negra no patronato em sete décadas

O alerta que ecoa nas prateleiras

Durante a abertura, Heloisa foi direta: “não adianta incentivar a leitura com livros racistas”. A frase sintetiza um debate que ganha corpo nas editoras: a necessidade de revisar catálogos, contratar revisores de sensibilidade e diversificar autores contratados.

O mercado editorial brasileiro faturou R$ 5,8 bilhões em 2023, segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Ainda assim, a participação de autores negros nos lançamentos anuais não ultrapassa 15%, de acordo com levantamentos independentes.

O que observar daqui para frente

A feira segue até o fim do mês, mas o legado da 72ª edição já pressiona outros eventos e instituições. Editores, gestores públicos e investidores do setor cultural terão de responder: a representatividade nas lideranças veio para ficar ou foi um caso isolado?

Acompanhe a taxa de diversidade nos conselhos editoriais das grandes casas nos próximos dois anos. O termômetro real da mudança não está no palanque, mas nas cláusulas contratuais e nos orçamentos de aquisição de novos originais.