Economia

Pix e Europa: a conexão silenciosa que pode injetar 4% a mais no comércio bilateral

Ilustração conectando Pix Brasil e TIPS Europa com setas de transferência financeira
Conexão entre Pix e TIPS pode aumentar comércio bilateral Brasil-Europa em 4%

O Banco Central Europeu aprovou em setembro a avaliação técnica para interligar o Pix ao TIPS, o sistema de pagamentos instantâneos da zona do euro. Um estudo da própria autoridade monetária estima que países com infraestruturas conectadas trocam 4% a mais em bens e serviços. A negociação, conduzida com o Banco Central do Brasil, ainda não tem data para sair do papel, mas já mobiliza nove áreas técnicas em Brasília.

Por que isso importa agora? Porque o custo de mover dinheiro entre continentes ainda consome margens que deveriam ficar no bolso do exportador.

O que o estudo do BCE revela sobre a geografia do dinheiro

Pesquisadores do BCE analisaram mais de uma centena de jurisdições que já operam sistemas de pagamento rápido. A conclusão: a conectividade financeira produz um efeito equivalente a metade do impacto de um acordo comercial tradicional e a um quarto do efeito de uma união monetária. Tudo isso sem assinar um único tratado tarifário — basta fazer a tecnologia conversar.

O ganho não é uniforme. Regiões onde o custo de remessa internacional supera 8% do valor transferido — caso dos fluxos da Europa para a África Subsaariana — são as que mais se beneficiam. Nos Balcãs Ocidentais, uma empresa paga taxas dez vezes maiores que uma transferência dentro da área do euro. No Brasil, o custo médio de uma remessa internacional gira em torno de 6% a 7%, segundo dados do próprio BC.

Três blocos, uma fragmentação cara

O estudo mapeou três características estruturais que explicam a ineficiência atual:

  • Blocos regionais isolados: sistemas rápidos não se falam além-fronteiras;
  • Centralidade nacional: cada bloco gira em torno de uma plataforma âncora — UPI na Índia, Pix no Brasil, TIPS na Europa;
  • América do Norte desconectada: a região ainda depende quase exclusivamente da rede de bancos correspondentes, a mais lenta e cara do mundo.

Essa arquitetura obriga o dinheiro a saltar por múltiplos intermediários. Cada salto adiciona taxa, prazo e risco operacional. Para um exportador brasileiro que vende à Itália, a liquidação pode levar dias e consumir até 3% do faturamento apenas em spread cambial e tarifas bancárias.

O cronograma realista: piloto em 2028, se nada travar

Técnicos ouvidos pela reportagem projetam um piloto operacional para junho de 2028. A data, contudo, depende de variáveis fora do controle dos engenheiros: aprovação do Conselho do BCE, alinhamento regulatório entre jurisdições, definição de governança compartilhada e adesão de participantes de mercado — bancos, fintechs, câmaras de compensação.

O tema ganhou sensibilidade geopolítica após o Pix entrar no radar da administração Trump, que passou a questionar quem controla os “trilhos” do dinheiro global. O acordo Mercosul–União Europeia, se ratificado, pode funcionar como catalisador político para acelerar a integração técnica.

O que muda na prática para quem importa e exporta

Se a interligação sair como desenhada, uma transferência Brasil–Europa será liquidada em segundos, 24/7, sem passar por Nova York ou Londres. O custo tende a convergir para o de uma TED doméstica — centavos, não porcentagem. Pequenas e médias empresas, hoje excluídas do comércio internacional pela complexidade bancária, passam a ter acesso direto ao mesmo trilho usado por grandes corporações.

O estudo do BCE cita explicitamente que sistemas com liquidação no atacado (wholesale) geram ganhos maiores. O Pix já nasceu com essa arquitetura; o TIPS também. A compatibilidade técnica, portanto, é alta — o desafio é jurídico e de governança.

O que observar nos próximos trimestres

  1. Publicação do relatório de viabilidade do BCE (previsto para 2025);
  2. Definição do modelo de governança bilateral — quem supervisiona, quem arca com riscos de liquidez;
  3. Adesão de pelo menos cinco grandes bancos brasileiros e europeus ao piloto;
  4. Sinalização política dos dois lados sobre prioridade orçamentária para a infraestrutura.

Enquanto o acordo não vem, exportadores brasileiros seguem pagando o “imposto invisível” dos bancos correspondentes. A cada dia de atraso na liquidação, capital de giro fica travado. A cada ponto percentual de spread, competitividade erosiona. A infraestrutura técnica já existe. Falta apenas decidir quem aperta o botão de “conectar”.