Justiça

Deputada denuncia saques suspeitos antes de colapso de banco que atendia metade do Paraguai

Deputada Rocío Vallejo denuncia saques suspeitos no Ueno Bank antes de intervenção
Parlamentar protocolará denúncia criminal sobre fuga de capitais às vésperas do colapso bancário

A deputada Rocío Vallejo protocolará nesta segunda-feira (9) uma denúncia criminal sobre movimentações financeiras atípicas ocorridas às vésperas da intervenção no Ueno Bank. O alvo: “pessoas não identificadas” que teriam esvaziado contas com informação privilegiada.

A parlamentar do partido Pátria Querida afirma que a fuga de capitais configura crime previsto no Código Penal paraguaio. A investigação mira executivos, autoridades e seus círculos próximos.

O que se sabe até agora

Vallejo anunciou a ação em suas redes sociais, onde acumula mais de 51 mil seguidores. Em entrevista ao jornal ABC Color, detalhou que a denúncia não cita nomes deliberadamente — o objetivo é obrigar o Ministério Público a rastrear a lista completa de grandes transferências sem blindagem política.

Segundo a deputada, a suspeita central é que informações sobre a insolvência iminente vazaram para amigos, familiares e parceiros comerciais de dirigentes do banco e do governo. Esses beneficiados teriam sacado seus recursos enquanto o público geral permanecia no escuro.

Um banco digital de escala massiva

O Ueno Bank não era uma instituição de nicho. Quase metade da população paraguaia mantinha conta na fintech. A suspensão de suas atividades pelo Banco Central do Paraguai, decretada após a constatação de problemas de solvência e indícios de irregularidades, atingiu em cheque a confiança do sistema financeiro local.

  • Base de clientes: cerca de 3,5 milhões de correntistas
  • Motivo da intervenção: insolvência e indícios de fraude contábil
  • Data da suspensão: semana anterior à denúncia

A dimensão do caso explica a pressão política. Vallejo e colegas parlamentares argumentam que, sem uma investigação isenta, a impunidade reforçará a percepção de que elites financeiras e políticas operam acima da lei.

Desdobramentos políticos imediatos

O escândalo já derrubou o presidente Santiago Peña, alvo de impeachment na sexta-feira. Neste sábado, teve a prisão preventiva decretada. Peña é investigado por lesão de confiança e administração em proveito próprio no caso Ueno.

A velocidade dos eventos — da intervenção bancária à queda do chefe de Estado em dias — sinaliza a gravidade das evidências em mãos dos investigadores. Mas também levanta dúvidas sobre a independência das instituições que agora conduzem o inquérito.

O que observar nas próximas semanas

A denúncia de Vallejo será o teste de fogo para o Ministério Público paraguaio. Se os promotores abrirem a “caixa-preta” das transferências pré-intervenção, nomes de peso podem surgir. Se houver morosidade ou blindagem, a credibilidade do sistema de justiça entrará em xeque junto com a do sistema bancário.

Para investidores e observadores regionais, três pontos merecem atenção: a capacidade de recuperação dos depósitos dos 3,5 milhões de clientes, o impacto no rating soberano do Paraguai e a eventual contaminação de outras fintechs expostas ao mesmo modelo de governança.

O desfecho dirá se o caso Ueno vira marco de accountability ou mais um capítulo de impunidade financeira no Cone Sul.