Uma discussão doméstica por um pote de pasta de amendoim ruim gerou uma marca que hoje fatura milhões e exporta para três países. Tudo começou com R$ 10 e um liquidificador na cozinha de casa. O que parecia improviso virou caso de estudo para quem quer escalar um negócio do zero.
Do sufoco financeiro à primeira receita caseira
Em 2016, a família Maena Gomes morava em Peruíbe, no litoral sul paulista. O orçamento estava apertado e os filhos, adeptos de treino pesado, brigavam pelo único pote de proteína acessível: uma pasta de amendoim de qualidade duvidosa. Juliana, a mãe, cansou da briga e decidiu fazer a própria versão.
Com os únicos R$ 10 que tinha no bolso, comprou amendoim e produziu seis quilos no liquidificador doméstico. A embalagem era feia, o rótulo improvisado e as caixas de envio, reaproveitadas. Ainda assim, a receita caseira superava qualquer coisa que encontravam no mercado.
Dois anos de “não” e a lição da persistência
Nos primeiros 24 meses, a operação foi 100% informal. Juliana e os filhos batiam de porta em academia, mandavam mensagem no WhatsApp e ouviram “não” na grande maioria das vezes. Allan, hoje diretor administrativo, resume a matemática brutal: a cada cem contatos, cinco viravam venda.
O faturamento era zero, mas o reinvestimento era total. Cada real que entrava voltava para matéria-prima, embalagem melhor ou logística. Não havia salário, só convicção de que o produto resolvia uma dor real: gente que treina quer proteína limpa, sem aditivos, e não encontrava.
O ponto de inflexão: 2021 e o “leitinho”
O quinto ano costuma ser o cemitério de microempresas — o Sebrae aponta que 60% fecham antes disso. A La Ganexa fez o caminho inverso. Três movimentos mudaram a trajetória de uma só vez:
- Lançamento do sabor “leitinho”, que virou o carro-chefe até hoje;
- Expansão além das fronteiras de São Paulo;
- Participação no Shark Tank Brasil.
No programa, receberam propostas de sociedade de João Apolinário (Polishop) e Carol Paiffer (Hub Dinastia). A família recusou as duas. O foco era manter o controle e a cultura. No fim de 2021, a receita anual já beirava R$ 2 milhões.
Exportação nasceu de um jantar casual
Não houve plano de internacionalização. Alex Alencar, sócio do Camila’s Restaurant em Miami e Orlando, provou a pasta na casa da cunhada no Brasil. Gostou, procurou Allan e, após visitar a fábrica em Peruíbe, fechou o primeiro pedido: R$ 40 mil. Hoje, o mercado americano responde por cerca de R$ 400 mil ao ano.
O próximo passo já está em testes: desenvolver um doce de leite no padrão argentino para atacar o país vizinho, que já importa a pasta e os alfajores da marca. A República Dominicana e, em breve, Paraguai e Bolívia completam o mapa atual.
De pasta única a portfólio de 50 variações
Perceberam que lançar novo sabor de pasta apenas canibalizava vendas dos anteriores. A solução foi criar “momentos de consumo”: café da manhã, lanche da tarde, opção salgada, acompanhamento para a própria pasta. Hoje são 13 linhas de produto e 50 SKUs entre tamanhos e sabores.
Em 2024, após dois anos de obra, inauguraram a nova unidade fabril. A estrutura suporta o salto projetado para 2027: faturamento de R$ 100 milhões. A meta declarada é ocupar um vácuo de mercado — ser a “Nestlé dos alimentos saudáveis”, já que, segundo Allan, ninguém cita uma grande indústria de alimento saudável de cabeça, só marcas de suplemento.
Gestão familiar, escala profissional
A estrutura societária permaneceu enxuta e funcional: Juliana (CEO e chefe de P&D), Allan (administrativo), Alline (marketing) e Allex (comercial). O genro Thiago Fernandes completa a diretoria. São 48 funcionários diretos — a empresa virou o maior motor privado de Peruíbe, cidade de 68,3 mil habitantes.
Juliana não vai à linha de produção, mas nada sai sem sua validação de fórmula e qualidade. O nome “La Ganexa” carrega a simbologia que ela escolheu: Ganesha, removedor de obstáculos no hinduísmo; o “x” representando multiplicação; o “la” marcando a fundação feminina. A família é evangélica — a escolha é semântica, não religiosa.
O que observar nos próximos trimestres
A capacidade da nova fábrica será testada pela entrada no varejo argentino e pela diversificação além do amendoim. Dois indicadores dirão se a projeção de R$ 100 milhões é realista: taxa de recompra nos novos SKUs e margem de contribuição nas exportações (hoje pressionada por logística e câmbio). Se a família mantiver a disciplina de reinvestir lucro em P&D e não em estrutura inchada, o case deixa de ser exceção e vira referência para o varejo de saudabilidade no Brasil.
