O calor no Nordeste não é apenas desconfortável: ele está derretendo a produção de mel, matando abelhas adaptadas ao sertão e reescrevendo a história climática da região. Em Santana do Seridó (RN), colmeias de jandaíras — abelhas nativas resistentes — viraram líquido sob temperaturas que beiram os 42°C. O cenário se repete em dezenas de municípios, e a previsão não traz alívio imediato.
O termômetro quebrou: o que mostram os dados do Inmet
Entre agosto e outubro de 2026, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou recordes de calor para o mês de outubro em 29 das 81 estações automáticas da região. Dezesseis delas superaram a barreira dos 40°C. O pico absoluto foi em Picos (PI), com 41,9°C, seguido de perto por Piranhas (AL) e Correntina (BA), ambas com 41,6°C.
O maior salto médio ocorreu em Arapiraca (AL): 39,7°C no dia 27, o que representa 2,2°C acima do recorde anterior (2018). Capitais como Maceió (36,8°C), Salvador (36,5°C) e Natal (32,9°C) também entraram na lista histórica. Confira alguns dos picos mais expressivos:
- Picos (PI): 41,9°C
- Castelo do Piauí (PI): 41,1°C
- Campo Maior (PI): 40,5°C
- Jaguaribe (CE): 40,6°C
- Palmeira dos Índios (AL): 40,2°C
- Ribeira do Amparo (BA): 40,2°C
Por que o sertão virou forno?
A meteorologista Cláudia Valéria, do Inmet, aponta o dedo para o super El Niño. O fenômeno aquece o Pacífico e, no Nordeste, inibe a formação de nuvens. Resultado: radiação solar direta, solo seco e umidade relativa do ar caindo abaixo de 20% no Ceará e Piauí.
Para completar, novembro trouxe ventos fracos. Sem a brisa para dissipar o calor, a sensação térmica se torna insuportável mesmo à sombra. “Estamos em um padrão de máximas acima da média histórica que deve persistir pelo menos até janeiro”, alerta a especialista.
O golpe na agricultura e no abastecimento de água
O caso do apicultor Ginaldo Francisco ilustra o prejuízo silencioso. Caixas de isopor reforçadas não seguraram a cera; o mel escorreu, abelhas morreram e o restante da colônia abandonou o apiário. “Nunca vi um calor desse”, resume ele, que atua no ramo desde 2004.
O Monitor de Secas da ANA confirma a escalada: em setembro, a seca grave avançou sobre Bahia, Pernambuco e Piauí, enquanto Sergipe, Alagoas e Paraíba migraram da classificação moderada para grave. O boletim do Cemaden de 29 de outubro reforça: anomalias de temperatura no Pacífico Central e Leste superaram 3°C.
O que observar daqui para frente
A previsão sazonal para novembro, dezembro e janeiro aponta chuvas abaixo da média na maior parte do Norte e em áreas do Nordeste e Centro-Oeste. As temperaturas, por sua vez, devem permanecer acima do normal em quase todo o país.
Para o setor produtivo, o sinal é de alerta: planejar irrigação suplementar, proteger rebanhos e colmeias contra estresse térmico e monitorar reservatórios deixa de ser precaução e vira necessidade de sobrevivência. A saúde pública também deve reforçar orientações para grupos vulneráveis evitarem exposição nos horários de pico de radiação. O próximo boletim do Monitor de Secas, com dados de outubro, dará a dimensão exata do buraco hídrico que 2026 deixou.
