Justiça

Golpe do banco fantasma: grupo tentou reativar instituição extinta em 1964 para levar R$ 2 bi da União

Esquema fraudulento de reativação do Banco de Crédito Móvel extinto em 1964 para golpe de R$ 2 bilhões
Polícia desmantela quadrilha que tentou ressuscitar banco extinto há 60 anos para cobrar precatório bilionário da União.

Uma organização criminosa tentou ressuscitar um banco que não existe há seis décadas para cobrar uma dívida bilionária do governo federal. O esquema, desmantelado nesta sexta-feira (6) pela Polícia Civil do Rio, mirava um precatório que pode ultrapassar R$ 2 bilhões. Oito pessoas foram indiciadas.

O alvo era o Banco de Crédito Móvel (BCM), liquidado em 1964. Investigadores descobriram que o grupo se passou por acionistas e contou com a colaboração de servidores públicos para registrar a reativação na Junta Comercial do Estado do Rio (Jucerja). A operação mobilizou dez mandados de busca em imóveis de alto padrão nas zonas Sul e Sudoeste da capital fluminense.

Como funcionava a engenharia do golpe

Segundo a apuração, os suspeitos apresentaram documentação forjada na Jucerja para “reativar” o BCM. Servidores da autarquia teriam recebido promessas de pagamentos que somavam R$ 600 mil para facilitar o trâmite. Com o registro em mãos, o grupo passaria a ter legitimidade jurídica para reivindicar o precatório.

A investigação aponta crimes de falsidade ideológica, estelionato, corrupção e associação criminosa. A ação faz parte da segunda fase da Operação Lázaro, deflagrada para desbaratar quadrilhas especializadas em fraudes documentais e patrimoniais.

O prêmio: um terreno de 153 mil m² no Recreio

O precatório em disputa refere-se à desapropriação de uma área de 153 mil metros quadrados no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio. Precatórios são dívidas que o poder público é obrigado a quitar após decisão judicial definitiva, sem possibilidade de recurso.

Valores dessa magnitude atraem esquemas sofisticados. A suspeita é que, uma vez reconhecida a “reativação” do banco, o grupo ingressaria com ação judicial para exigir o pagamento integral, desviando recursos públicos para contas privadas.

  • Banco alvo: Banco de Crédito Móvel (extinto em 1964)
  • Valor estimado do precatório: até R$ 2 bilhões
  • Área do terreno: 153 mil m² no Recreio dos Bandeirantes
  • Propina prometida a servidores: R$ 600 mil
  • Dinheiro apreendido: quase R$ 100 mil em espécie + moedas estrangeiras

Ramificações no mercado imobiliário

As apurações revelaram indícios de que os investigados também atuam em fraudes imobiliárias, invasões de terrenos e empreendimentos irregulares na Barra da Tijuca. A polícia suspeita que o golpe do banco fantasma seria apenas uma das frentes de atuação do grupo, especializado em transformar disputas fundiárias e processos judiciais em ativos financeiros ilícitos.

Quatro dos indiciados terão de usar tornozeleira eletrônica e cumprir recolhimento domiciliar noturno, por determinação judicial. A Jucerja foi procurada, mas não se manifestou até o fechamento desta reportagem. As defesas dos investigados também não foram localizadas.

O que observar nos próximos capítulos

O caso expõe a vulnerabilidade de registros públicos a fraudes documentais bem arquitetadas, especialmente quando envolvem instituições extintas há décadas e precatórios de alto valor. A tendência é que órgãos de controle intensifiquem a fiscalização sobre reativações societárias atípicas e cruzamentos de dados entre juntas comerciais, tribunais e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

Para investidores e empresas que lidam com ativos judiciais, o episódio reforça a necessidade de due diligence rigorosa sobre a cadeia titularidade de créditos públicos — incluindo a verificação da existência real e regularidade da parte credora original. A Justiça ainda analisará se o registro da reativação pode ser anulado administrativamente, o que encerraria a pretensão do grupo sem necessidade de longa batalha judicial.