Faltam menos de 60 dias para a estreia da CBS e do IBS, mas apenas 9,1% dos profissionais contábeis do país possuem um plano de transição efetivamente rodando. O dado expõe um abismo entre o calendário legal e a realidade dos escritórios que atendem milhões de empresas.
O alerta vem de um levantamento do Thomson Reuters Institute, realizado entre julho e agosto de 2026 com 577 especialistas. Embora o percentual de preparados tenha mais que dobrado em relação a 2025, a maioria absoluta segue vulnerável às primeiras mudanças de impacto real no caixa.
O retrato do atraso: onde a maioria está parada
A pesquisa desenha um cenário em camadas. Mais da metade (52,9%) está apenas “acompanhando” a legislação, sem estrutura de execução. Outros 23,4% iniciaram a preparação, mas 13,2% mal sabem por onde começar.
O vazio operacional aparece num número crítico: 74% dos escritórios não criaram grupos de trabalho ou comitês internos para dissecar a reforma. Sem governança interna, a adaptação vira aposta.
Por que o planejamento travou?
Os próprios profissionais elencam as barreiras. A principal não é técnica, é operacional: 36,8% culpam a rotina e a falta de tempo para dedicar ao tema. Em seguida, vêm a incerteza regulatória (27,3%) e a carência de treinamento (13,2%).
- Falta de tempo/prioridades concorrentes: 36,8%
- Incerteza regulatória: 27,3%
- Falta de conhecimento/treinamento: 13,2%
- Escassez de mão de obra qualificada: 11,7%
- Complexidade da legislação: 9%
Percentuais não somam 100% pois múltiplas respostas eram permitidas.
O custo invisível: caixa e split payment
Perto de 70% dos entrevistados ainda não colocaram na ponta do lápis quanto a adaptação vai custar. Destes, 46% pretendem calcular, mas não começaram; 23% nem pretendem mensurar. O instituto estima que a conta pode chegar a 2% da receita anual da organização.
Mas o choque financeiro vai além de software e honorários. Marcondes de Borba, vice-presidente da Thomson Reuters, destaca o split payment: o tributo será apartado no momento do pagamento da operação, não ficando mais no caixa da empresa até o recolhimento posterior.
Isso muda a dinâmica do capital de giro. Recursos que antes financiavam o intervalo entre pagar fornecedores e receber de clientes sairão automaticamente na liquidação financeira. 51% dos contadores já preveem impacto negativo moderado a severo no fluxo de caixa dos clientes. Apenas 26% veem melhora.
Da obrigação à estratégia: a virada de chave
A complexidade esperada — 55% acreditam que o trabalho contábil ficará mais complexo — carrega uma oportunidade concreta. 73% projetam aumento na demanda por serviços especializados.
O papel do contador migra da apuração de tributos e envio de declarações para a gestão de cenários, precificação, revisão de contratos e limpeza de dados cadastrais. Quem antecipar essa transição deixa de ser “custo de conformidade” para virar conselheiro de negócios.
O que observar nos próximos 90 dias
A janela para agir sem atropelo fechou. O foco agora deve ser: mapear contratos de longo prazo que não preveem repasse de tributo no split payment, simular o novo ciclo de caixa com a retenção na fonte e estruturar — ainda que enxuto — o comitê interno de transição. Escritórios que tratarem a reforma apenas como “atualização de sistema” em janeiro de 2027 chegarão tarde na entrega de valor real ao cliente.
