O Banco Central do Paraguai assumiu o controle do Ueno Bank e prendeu seu CEO, Miguel Vázquez, em uma operação que derrubou a instituição que atendia quase dois terços da população adulta. O colapso forçou a renúncia do presidente do Banco Central e do próprio presidente da República, Santiago Peña, segundo o relato oficial. Mas a intervenção esconde uma teia de empréstimos suspeitos, recursos públicos concentrados e disputa política que vai muito além de uma simples quebra bancária.
O choque nas agências e o alcance do estrago
Na manhã de 3 de novembro, clientes foram impedidos de sacar economias e contidos pela polícia diante das agências. O Ueno não era apenas um banco: com 2,9 milhões de correntistas, era a porta de entrada do sistema financeiro para paraguaios acostumados a guardar dinheiro em casa. Suas lojas imitavam o padrão fintech global — cafés, sofás e telas touch — contrastando com a frieza dos concorrentes tradicionais.
A promessa era de um unicórnio avaliado em US$ 1 bilhão. A realidade, contudo, revelou um índice de solvência inferior à metade do exigido por lei. Títulos de dívida de US$ 350 milhões com vencimento em 2031 desvalorizaram 12% em dias. Uma injeção de US$ 100 milhões anunciada às pressas não evitou a liquidação.
Dinheiro público e a sombra do poder político
O ponto nevrálgico da crise é a simbiose entre o banco e o Estado. Cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos — incluindo 10% dos fundos de pensão do setor público — estavam depositados no Ueno. A Itti, empresa do mesmo grupo, acumulava mais de uma dezena de contratos para gerir dados sensíveis de cidadãos.
A oposição acusa o presidente Peña de “responsabilidade direta”, alegando conspiração para desviar verbas públicas para empresas privadas ligadas a ele. Peña, que detinha ações da holding até o ano passado, nega irregularidades e garante que 98% dos depositantes serão ressarcidos pelo fundo garantidor.
Empréstimos para “a própria casa” e a guerra dos clãs
Investigações apontam que o banco liberou cerca de US$ 150 milhões para pequenas empresas ligadas a acionistas e funcionários, ferindo normas de governança. O vazamento desses dados coincidiu com a ofensiva política de aliados do ex-presidente Horacio Cartes — dono de banco concorrente e antigo padrinho de Peña —, que romperam relações recentemente.
O cenário expõe a fragilidade da regulação: o próprio presidente do BCP, Carlos Carvallo, comandava o Ueno até três anos atrás. A renúncia dele, a pedido de Peña, seguida pela saída do próprio presidente, sugere uma tentativa de contenção de danos que chegou tarde.
O que está em jogo para o bolso e os dados
- Garantia limitada: O fundo de reserva cobre até US$ 38 mil (R$ 209 mil) por cliente em 15 dias; valores acima terão “maior proteção possível”, sem prazo definido.
- Ativo tóxico: Circulam rumores de venda da carteira para outro banco. O medo maior, segundo a ONG TEDIC, é o destino dos dados biométricos de milhões de usuários.
- Empresas médias feridas: Diferente de 1995, o sistema bancário geral está sólido, mas negócios que concentravam caixa no Ueno enfrentarão estrangulamento de liquidez.
O que observar daqui para frente
O Paraguai cresceu 6,6% em 2025, ostentando o título de economia mais promissora da região fora do eixo petrolífero. O caso Ueno, porém, acende um alerta vermelho para investidores: a concentração de risco político em instituições financeiras privadas pode transformar um “gigante adormecido” em um castelo de cartas. A velocidade do contágio — de uma fintech moderna para a cadeira presidencial — mostra que, em mercados emergentes, a governança corporativa e a independência regulatória não são detalhes burocráticos, são a linha entre a liquidez e o caos.
