Investidores institucionais estão freando o ímpeto para o IPO da Anthropic, programado inicialmente para novembro, e o sinal vermelho aceso não é apenas sobre preço — é sobre confiança no setor inteiro de IA.
A avaliação de US$ 1,5 trilhão (R$ 8,25 trilhões) discutida nas rodadas privadas agora soa como teto, não como piso, e a janela de lançamento está se fechando.
O valuation que ninguém quer pagar
Fontes próximas às negociações revelam que grandes fundos consideram o número “no limite superior das expectativas” — eufemismo para “caro demais num mercado assustado”.
Há poucos meses, a startup mirava US$ 2 trilhões. A queda de 25% na expectativa reflete o choque nas ações de tecnologia: o setor teve o pior mês desde maio de 2002, com desempenho 10,7% abaixo do S&P 500.
Para fechar a oferta, a Anthropic pode precisar oferecer desconto significativo — o que diluiria acionistas atuais e sinalizaria fraqueza.
Dados que faltam e prejuízos que persistem
O formulário S-1 atualizado omitiu a receita de outubro — justo o mês que provaria se a desaceleração recente foi revertida.
Investidores querem ver o número antes de assinar o cheque. Enquanto isso, a empresa acumula prejuízos trimestrais e compromissos bilionários com parceiros de infraestrutura para expandir capacidade de IA.
A necessidade de caixa é real, e o mercado sabe disso. Quem tem o dinheiro dita as regras.
Efeito dominó: se a Anthropic trava, o setor treme
Um adiamento não afeta apenas a startup. O ecossistema de IA já sente o baque:
- Neoclouds como Nebius, IREN e Nscale viram ações despencarem — uma perdeu metade do valor em 30 dias
- CDS (swaps de crédito) de CoreWeave e SpaceX atingiram recordes, sinalizando medo de calote
- Varejo vendeu ações de tech no ritmo mais intenso desde o início da pandemia
O The Wall Street Journal confirmou na quinta-feira (5): o ceticismo em relação aos US$ 1,5 trilhão é generalizado entre bancos coordenadores.
Política e infraestrutura: o inimigo invisível
Além do mercado, a Anthropic enfrenta ventos contrários regulatórios. Iniciativas estaduais vitoriosas nas eleições de meio de mandato prometem barrar novos data centers — a espinha dorsal da expansão de IA.
Microsoft já apertou a supervisão sobre projetos de provedores de nuvem especializada, segundo a Bloomberg. A incerteza geopolítica e energética torna o capex futuro mais arriscado e caro.
O que observar nas próximas semanas
Três gatilhos decidirão o destino da oferta: a divulgação da receita de outubro, a estabilização do Nasdaq acima de 18.000 pontos e a definição do roadshow — se mantido para a semana de 9 de novembro ou empurrado para 2025.
Rick Meckler, da Cherry Lane Investments, resume o consenso: “Não é que essas empresas não farão parte do futuro. Elas vão abrir capital. Mas as avaliações privadas subiram tempo demais — veremos retração.”
Para quem acompanha o setor, a lição é clara: o IPO da Anthropic virou termômetro. Se a “queridinha” da IA não consegue precificar, a festa do capital de risco em inteligência artificial pode estar mudando de endereço — e de valuation.
