Justiça

O segredo dos 40%: Como as mulheres vão ocupar o Judiciário na próxima década

Mulheres em conferência "Mulheres que movem a Justiça" em Brasília, discutindo ocupação de 40% dos cargos vitalícios do Judiciário
Conferência debate como mulheres ocuparão 40% dos cargos vitalícios do Judiciário na próxima década.

A conferência “Mulheres que movem a Justiça”, em Brasília, escancarou uma janela de oportunidade histórica: 40% dos cargos vitalícios do Judiciário serão preenchidos nos próximos dez anos. A presidente da EBC, Antonia Pellegrino, foi direta: a articulação em rede não é apenas estratégia política, é mecanismo de sobrevivência. Mas o caminho para ocupar esses espaços esbarra em um inimigo que age nos bastidores das próprias instituições.

O dado que muda o tabuleiro do poder

Pellegrino resgatou o “lobby do batom” — a aliança suprapartidária de parlamentares na Constituinte de 1987-88 — para provar que união feminina rende resultados concretos. A projeção de vagas vitalícias transforma o cenário atual em um divisor de águas. Não se trata só de preencher cotas; trata-se de definir quem vai interpretar a lei nas próximas gerações.

O recado da dirigente da comunicação pública ecoou como alerta: governos extremistas miram primeiro a comunicação pública. Redes de apoio entre mulheres, segundo ela, funcionam como antídoto contra a desinformação articulada por grupos radicais.

Direito na ponta da língua: o filão das influenciadoras jurídicas

Enquanto o debate institucional avança, advogadas-influenciadoras traduzem o juridiquês para milhões. Sara Gabriela, do projeto “Seja a princesa que salva a si mesma”, nasceu da necessidade de comunicar direitos a vítimas de violência em Goiás. A tese dela: a lei é avançada, mas a cultura é o freio. Informação não deve ser suavizada.

Miriane Ferreira, com mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, ataca uma dor silenciosa: mulheres que abriram mão de carreira formal para cuidar da casa e da família e, no divórcio, descobrem que não sabem reivindicar o patrimônio construído em conjunto. Ela ensina o básico que ninguém ensina:

  • Valor econômico do trabalho doméstico e de cuidado;
  • Direitos sobre bens adquiridos na constância do casamento;
  • Como não assinar acordos prejudiciais por desconhecimento.

“As mulheres precisam dessa solidariedade uma das outras para mostrar o poder que têm”, resume Miriane.

O “Massacre do Judiciário”: denúncia sobe, acolhimento desce

O tom mudou com Mayra Cotta, criadora da série “Afiadas”. Ela trouxe o contraponto duro: “As mulheres estão denunciando mais, mas estão sendo massacradas pelo Judiciário”. A advogada aponta que juízes ainda “passam pano” para assediadores e abusadores no dia a dia das varas.

Não basta ter mais mulheres no banco dos réus ou na promotoria se a cultura de recebimento da denúncia não muda. A representatividade numérica, sem mudança de mentalidade, vira figurativa.

Voto, narrativa e o racismo estrutural

Thayse Xavier, fundadora da plataforma “Elas trabalham”, conectou o debate ao urnas: no mês passado, usou a base para estimular o voto feminino. A lógica é circular — mulheres fora do poder devem sustentar as que estão dentro.

Fernanda Amim, cineasta, fechou o ciclo trazendo o documentário “Reconhecidos”. O filme expõe como o reconhecimento fotográfico, falha técnica do sistema de justiça criminal, alimenta o racismo estrutural e prende inocentes. A justiça igualitária, portanto, passa também por revisar ferramentas que punem corpos negros.

O que observar daqui para frente

A conferência termina sexta-feira (6), mas a agenda fica. Três vetores merecem monitoramento contínuo por quem atua em governança, compliance ou investimento social:

  • Editais e nomeações: o preenchimento das vagas vitalícias nos tribunais superiores e regionais nos próximos 24 meses;
  • Protocolos de acolhimento: se o CNJ e tribunais locais vão padronizar fluxos que evitem a revitimização denunciada por Mayra Cotta;
  • Alfabetização jurídica de base: o avanço de projetos como o de Miriane e Sara Gabriela como política pública de acesso à justiça.

Quem entende que poder se constrói em rede — e que dados abrem portas que discursos não abrem — já largou na frente.