Pela primeira vez em 45 anos, o pescador Reinaldo de Oliveira liga a torneira e vê a geladeira funcionando sem parar. Em Anori, no interior do Amazonas, 300 famílias deixam de viver no escuro nos próximos seis meses graças a um investimento de R$ 15 milhões em energia solar individual. A transformação começou pela comunidade Murirú.
O sistema fotovoltaico gera e armazena energia na própria residência. Não depende de rede convencional nem de postes. Isso significa geladeira, ventilador, carregador de celular — e até água gelada — disponíveis a qualquer hora do dia.
O fim de uma espera que durava décadas
Josiane Alves da Silva, agricultora, resume o impacto em uma frase: “A gente nunca tomou uma água fria, mas agora a gente vai ter”. Andreia Mota, dona de casa, completa emocionada: “A gente nem imaginava essa bênção na nossa vida”.
Para Marney Antunes, diretor de Operações da Âmbar Energia, a equação é simples: “Nenhuma comunidade se desenvolve sem infraestrutura, e a energia elétrica é essencial para isso”. A empresa assumiu a concessão de distribuição no estado em maio de 2026 e retomou o programa federal que estava paralisado desde 2024.
Dois caminhos, um mesmo objetivo
A estratégia no Amazonas opera em duas frentes simultâneas. Entenda a divisão:
- Rede convencional: 11.517 ligações em 54 municípios — R$ 423,8 milhões
- Sistemas solares individuais: 7.258 ligações em 18 municípios — R$ 362 milhões
O total projeta 18.775 novas ligações e R$ 785,8 milhões em investimentos até a conclusão. Anori é apenas o começo: outros 17 municípios receberão os mesmos kits fotovoltaicos onde a extensão da rede não é viável tecnicamente ou economicamente.
Por que solar individual muda o jogo na Amazônia
Levar postes e cabos por centenas de quilômetros de floresta densa, rios e áreas de difícil acesso torna a rede tradicional inviável em muitos pontos. O sistema off-grid resolve isso: painéis no telhado, baterias dentro de casa, autonomia imediata.
Cada kit atende uma residência completa. A manutenção é simplificada e a vida útil dos equipamentos supera 20 anos. Para o poder público, o custo por ligação cai drasticamente comparado à expansão de rede em regiões remotas.
O que observar nos próximos meses
A execução em Murirú serve de termômetro. O cronograma prevê conclusão das 300 unidades em Anori dentro de seis meses. Em paralelo, as outras 17 cidades entram na fila de instalação. O ritmo de entrega e a adesão das famílias dirão se o modelo escala para outras regiões isoladas do país.
Para investidores e gestores, o dado-chave está na relação custo-benefício: R$ 362 milhões para 7.258 ligações solares resulta em média de R$ 49,8 mil por unidade — fração do custo de rede convencional na mesma geografia. O acompanhamento da taxa de funcionamento contínuo e satisfação dos usuários será o termômetro real de replicabilidade.
