As Lojas Renner anunciaram na noite de quinta-feira (5) a retirada das projeções de crescimento de receita para 2026 e para o ciclo estratégico até 2030. A decisão expõe a fragilidade do cenário atual, mas esconde um detalhe no balanço que pode surpreender quem olha apenas o topo da demonstração de resultados.
O balanço do terceiro trimestre em números
A varejista gaúcha — dona das bandeiras Renner, YouCom e Camicado — reportou vendas líquidas de R$ 3,03 bilhões entre julho e setembro. O volume representa recuo de 1,6% na comparação anual e ficou abaixo do consenso de mercado.
No lucro líquido, a queda foi de 11,8%, totalizando R$ 246,4 milhões. Apesar da retração, o número superou a expectativa média dos analistas, estimada em R$ 199 milhões pela LSEG. O Ebitda ajustado, termômetro da eficiência operacional, somou R$ 571 milhões, retração de 3,9% frente a 2023.
Por volta das 10h50 desta sexta-feira (6), os papéis LREN3 oscilavam em queda de 0,62%, cotados a R$ 9,47 na B3.
Por que a diretoria jogou a toalha no guidance?
Segundo o presidente Fabio Faccio, a “atual conjuntura macroeconômica e competitiva aumentou o grau de incerteza, reduzindo a previsibilidade do ritmo de crescimento da receita”. As premissas traçadas no fim do ano passado se mostraram incompatíveis com a realidade de 2024.
Três pilares sustentam a revisão drástica:
- Concorrência externa: O fim da isenção de imposto para compras internacionais de até US$ 50 — a chamada “taxa das blusinhas” — em maio intensificou a disputa com gigantes como Shein e Shopee.
- Consumo seletivo: Renda pressionada, crédito caro e endividamento elevado forçam o consumidor a priorizar itens essenciais, prejudicando o varejo de moda.
- Calendário atípico: A Copa do Mundo, realizada em julho, drenou fluxo e atenção do varejo no período.
O que continua de pé no planejamento estratégico
Nem tudo foi descartado. A companhia manteve as demais metas de longo prazo, incluindo a previsão de abertura de 50 a 60 novas lojas em 2026. O sinal indica que a expansão física segue como vetor de crescimento, mesmo com a receita total sob névoa.
A manutenção da meta de expansão física sugere que a gestão aposta na capilaridade para defender market share, enquanto navega pela turbulência de margem no curto prazo.
O que o investidor deve monitorar daqui para frente
O mercado precificou a incerteza, mas o lucro acima do esperado traz um alívio tático. Daqui em diante, dois indicadores ditam o ritmo: a trajetória da inadimplência no cartão próprio (Renner Pay) e a capacidade de repasse de custos sem perder volume. Se o consumo discricionário não der sinais de vida no quarto trimestre, a revisão de metas pode se estender ao plano de lojas. A conferência de resultados desta manhã trará pistas sobre a velocidade de reação da nova diretoria comercial.
