As bolsas do Japão e da Coreia do Sul viveram nesta sexta-feira (6) o pior pregão desde o anúncio das tarifas globais de abril de 2025. O índice Nikkei 225 despencou quase 6%, enquanto o Kospi sul-coreano afundou 8,5%, forçando a paralisação das negociações por 20 minutos via circuit breaker. O gatilho foi uma fuga massiva de ações de tecnologia, impulsionada pelo temor de que o ciclo de alta da inteligência artificial esteja se esgotando.
O tamanho do estrago em números
Com a queda de hoje, o Nikkei acumula perdas superiores a 20% desde o pico de junho, entrando oficialmente em território de bear market (mercado de baixa). Do lado coreano, o cenário é ainda mais dramático: o Kospi recua mais de 40% em relação ao mesmo topo histórico. As duas maiores fabricantes de chips de memória do mundo, pilares da economia sul-coreana, lideraram o tombo:
- Samsung Electronics: -9,9%
- SK Hynix: -11,7%
Juntas, elas respondem por metade da composição do índice Kospi. No Japão, a SoftBank — grande apostadora na OpenAI — caiu quase 11%, somando desvalorização de 60% desde junho.
O gatilho veio de Wall Street e de Washington
A onda de vendas não nasceu na Ásia. Na véspera, o Nasdaq 100 afundou 6,4%, varrendo mais de US$ 3 trilhões (cerca de R$ 16,5 trilhões) em valor de mercado. Analistas apontam dois vetores principais para o pânico sincronizado:
- Eleições de meio de mandato nos EUA: vitórias democratas em estados-chave elevaram a probabilidade de regulações mais duras para IA e data centers.
- Desmonte de posições concentradas: gestores admitem que a aposta em IA estava “extremamente lotada” e o movimento atual é uma corrida para a saída.
Por que os semicondutores sangram mais
A lógica do mercado é direta: se a regulação aperta ou a euforia arrefece, as big techs (Microsoft, Google, Meta, Amazon) reduzem o capex (investimento de capital) em novos data centers. Menos data centers significam menos demanda por chips de memória de alta largura de banda (HBM) — justamente a especialidade da Samsung e da SK Hynix.
Prashant Bhayani, CIO para Ásia do BNP Paribas Wealth Management, resumiu o sentimento: “Nos acostumamos a uma volatilidade muito baixa, mas isso claramente chegou ao fim.” A quebra do paradigma de “comprar a queda” (buy the dip) pegou fundos alavancados no contrapé, forçando vendas técnicas em cascata.
Refúgio em títulos e o enigma do iene
Enquanto as ações derretiam, os JGBs (títulos do governo japonês de 10 anos) viram forte procura. O rendimento caiu 0,14 ponto percentual, para 2,63%, sinalizando fuga para qualidade. O movimento também pressiona o Banco do Japão: juros mais baixos nos títulos longos dificultam a normalização da política monetária sem assustar o mercado de ações.
A visão de quem vê oportunidade no caos
Nem todos veem o fim do ciclo. Albert Yong, da Petra Capital Management em Seul, argumenta que a demanda estrutural por infraestrutura de IA permanece intacta. “Os grandes provedores de nuvem podem realocar data centers para outros estados ou países. Dada a disputa EUA-China pela liderança em IA, é improvável uma redução significativa dos planos de expansão”, afirmou.
O que observar na próxima semana
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, admitiu que o governo monitora “atentamente” se a liquidação será temporária ou persistente. Para o investidor, três variáveis ditam o próximo capítulo:
- Guidance das big techs americanas: qualquer sinal de corte de capex para 2025/26 reacende a venda.
- Fluxo de fundos globais: o Japão era destino preferido para exposição a IA fora dos EUA; a reversão desse fluxo amplifica a queda.
- Níveis técnicos do Nikkei: a quebra de suportes chave pode atrair venda algorítmica adicional.
O fechamento de hoje não foi apenas uma correção técnica; foi um teste de estresse na tese de investimento que sustentou o rali global dos últimos 18 meses. Quem tem exposição direta ou indireta a semicondutores e infraestrutura de IA precisa revisar cenários de estresse e tamanhos de posição — a volatilidade baixa, avisou Bhayani, ficou no passado.
