Economia

R$ 2,4 mi e base esquecida: o erro de gestão que trava o São Paulo

Dorival Júnior e comissão técnica do São Paulo no banco de reservas durante partida
Custo mensal de R$ 2,4 milhões da comissão técnica contrasta com crise financeira do clube

A comissão técnica de Dorival Júnior consome até R$ 2,4 milhões mensais — valor de elite europeia — enquanto o São Paulo exige reestruturação financeira urgente para 2027. O descompasso entre custo e estratégia expõe uma contradição que vai além do campo.

Dois candidatos à presidência já sinalizam prioridade absoluta: reorganização das contas e aproveitamento agressivo da base. A atual gestão futebolística, porém, caminha no sentido oposto.

O peso da folha que ninguém comenta

Fontes internas confirmam que o staff de Dorival situa-se entre R$ 2,2 e R$ 2,4 milhões por mês. Para efeito de comparação, treinadores com perfil de “reconstrução com base” no mercado brasileiro costumam operar na faixa de R$ 800 mil a R$ 1,2 milhão com comissão completa.

O investimento seria justificável se o retorno esportivo fosse consistente. Não é. O rendimento atual oscila mais do que nas passagens de Hernán Crespo e Roger Machado, ambos com custos inferiores e maior integração de garotos.

Reforços veteranos, minutos subtraídos da base

A atuação do executivo Rafinha na última janela reforça o desalinhamento. Quatro contratações — Aurélio Buta, Domingos Duarte, Victor Sá e Iago — têm entre 29 e 32 anos. Todos chegam com salários acima da média dos promovidos das categorias de base.

O impacto direto aparece na escalação:

  • Zaga: Osório e Isac, avaliados como alto potencial interno, perdem espaço para Rafael Toloi (34 anos, custo elevado, sem valor de revenda).
  • Ataque: Ferreirinha e Victor Sá consomem minutos que poderiam acelerar Lucca, destaque da Copinha.
  • Lateral-direita: Igor Felisberto, titular da Seleção Sub-20, segue sem sequência. Aurélio Buta (lesionado) e Pedro Lima (emprestado pelo Wolverhampton) passaram à frente.

O que dizem os candidatos — e por que importa

Em entrevista ao UOL, Marcelo Portugal Gouvêa (oposição) foi taxativo: busca treinador que “caiba na realidade financeira, trabalhe muito com a base e encontre soluções no elenco atual”.

Vinicius de Medeiros (situação) ainda não detalhou o projeto futebolístico, mas aliados garantem que a reestruturação financeira será o eixo central. Ambos convergem num ponto: o modelo atual não sobrevive à transição de 2027.

Cenários para a virada de ano

A tarefa imediata para 2025 envolve três frentes simultâneas:

  • Negociar saídas de atletas acima de 30 anos com salários incompatíveis com o novo teto.
  • Reduzir a folha da comissão técnica em pelo menos 40% sem perder competitividade tática.
  • Estabelecer meta mínima de minutos para atletas Sub-23 em jogos oficiais — incluindo clássicos.

Clubes que adotaram protocolo semelhante (Fortaleza 2021, Botafogo 2023) reduziram custos em 18 a 22% no primeiro ano e geraram receitas de venda superiores a R$ 150 milhões no biênio seguinte.

O que observar nas próximas semanas

A eleição presidencial em dezembro definirá o mandatário, mas a janela de janeiro já testará a capacidade de execução. Dois indicadores anteciparão o rumo: volume de saídas de veteranos nos primeiros 30 dias e percentual de minutos destinados a garotos da base nas primeiras dez rodadas do Paulistão.

Se a diretoria mantiver a estrutura atual de custos e critérios de escalação, o São Paulo entrará em 2027 com o mesmo problema de 2024 — apenas com a dívida maior.