Internacional

Virada nos EUA: o que a ‘onda azul’ esconde sobre tarifas e a Farm Bill

Capitólio dos EUA com bandeiras americana e brasileira simbolizando impacto das eleições no agronegócio
Mudança no Congresso dos EUA afeta tarifas e Farm Bill com reflexos no agronegócio brasileiro.

A vitória democrata nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos inverteu o tabuleiro político em Washington e coloca o agronegócio brasileiro sob uma nova lente de oportunidades e riscos. A troca de comando no Congresso força o governo atual a rever posições que tiram renda do campo americano, mas os desdobradores vão muito além da relação bilateral.

Dois eixos centrais explicam a virada: a guerra tarifária e o conflito no Irã. Ambos pressionam custos de insumos essenciais — fertilizantes, diesel e logística — e a pressão parlamentar por um recuo deve se intensificar nas próximas semanas.

O alívio imediato nos custos de produção

Com a nova configuração no Legislativo, a expectativa é de redução das barreiras comerciais impostas a parceiros como o Brasil. Hoje, taxas pesadas sobre metais importados encarecem máquinas e equipamentos agrícolas nos EUA, repassando custos ao produtor.

Se houver revisão tarifária, o efeito cascata beneficia o lado brasileiro de duas formas:

  • Insumos mais baratos: Fim do conflito no Irã normaliza oferta de fertilizantes e diesel globalmente.
  • Menos distorção cambial: Menos tarifas reduzem pressões inflacionárias internas nos EUA, evitando alta agressiva dos juros.

Mas há um contraponto estratégico: um agro americano mais competitivo disputa mercado a mercado com o produto brasileiro, especialmente na soja.

O xadrez da soja e a armadilha chinesa

Atualmente, a soja dos EUA paga 10% de tarifa extra na China; o Brasil, isento. Uma negociação sino-americana que elimine essa diferença tiraria vantagem competitiva brasileira. Ocorre que Pequim não tem incentivo para ceder agora: a fragilidade política do presidente americano enfraquece sua barganha até o fim do mandato.

Esse impasse mantém, por enquanto, a janela de preferência comercial aberta para o exportador nacional.

Farm Bill: a corrida contra o relógio de 2027

A lei agrícola americana (Farm Bill), vencida desde 2018 e prorrogada sucessivamente, ganhou urgência. Republicanos querem aprová-la ainda este ano pois projetam ser minoria no Senado a partir de 2027.

O texto em negociação mexe em três pilares sensíveis:

  • SNAP (vales-alimentação): 37 milhões de beneficiários em 2025 (queda frente a 42 mi em 2024). O impasse sobre cortes e divisão de custos com estados travava a votação.
  • Seguro e clima: Novas regras para cobertura de perdas climáticas e volatilidade de commodities.
  • Mão de obra: Flexibilização de vistos para trabalhadores rurais, gargalo agravado pela política migratória restritiva.

A aprovação injetaria previsibilidade na renda do produtor americano, alterando curvas de oferta globais.

O mapa do poder mudou: 139 para 119

Dados do Farm Journal mostram queda na bancada ruralista: de 139 para 119 congressistas com perfil agro a partir de 2027. A renovação trouxe parlamentares com menos experiência setorial, o que pode dificultar a articulação de pautas técnicas.

O fato inédito é geográfico: pela primeira vez, todos os estados líderes nas principais commodities passaram a ter governadores ou senadores democratas.

  • Iowa: Milho, suínos, ovos, etanol (Senado virou Dem).
  • Texas: Maior rebanho bovino (Senado virou Dem).
  • Kansas: Trigo de inverno e sorgo (Senado virou Dem).
  • Illinois: Soja (já era Dem).
  • Geórgia: Frango (já era Dem).
  • Califórnia: Maior economia agro (já era Dem).

Estados como Carolina do Norte (tabaco), Carolina do Sul (hortaliças), Maine (mirtilo/lagosta) e Ohio (queijo suíço) completam a lista de viradas. A Flórida (açúcar de cana) manteve maioria republicana, mas Minnesota (açúcar de beterraba) segue democrata.

O que observar daqui para frente

O desafio democrata agora é traduzir votos em estabilidade regulatória. Para o empresário e investidor brasileiro, três variáveis mandam no curto prazo: a velocidade da descompressão tarifária, o desfecho da Farm Bill no Senado e a capacidade dos EUA de fechar acordo comercial com a China sem concessões que anulem a vantagem tarifária atual do Brasil. A janela está aberta; a gestão de risco deve ser recalibrada semanalmente.