Mato Grosso enfrenta o segundo início de plantio mais seco em quase três décadas, jogando uma sombra sobre as projeções recordes para a safra 2026/2027 de soja. Entre 1º de setembro e 27 de outubro, o volume de chuvas ficou 33% abaixo da média histórica. A pergunta que fica: o avanço das máquinas no campo garante a colheita ou apenas adia o problema?
O que os números revelam sobre o solo
O levantamento da EnsoAg/SmartCampo, com base em dados da NASA e divulgado pela Aprosoja-MT, é taxativo: 186 milímetros contra uma média esperada de 278 mm. Não é um caso isolado. Dos 23 municípios monitorados, 22 registraram déficit hídrico. Em 66% do território estadual, a chuva ficou pelo menos 25% aquém do normal.
O epicentro da seca fica na região dos Parecis. Em Campos de Júlio, por exemplo, choveu apenas 89 mm em 30 dias — 56% abaixo do previsto. Brasnorte, Comodoro e Sapezal completam a lista das áreas mais castigadas.
Plantar não é colher: o alerta da entidade
O presidente da Aprosoja-MT, Lucas Costa Beber, resume o dilema: o plantio adiantado não equivale a produção garantida. Lavouras semeadas na janela inicial já entram na fase reprodutiva, justamente a mais sensível à falta de água. O estresse hídrico agora define o tamanho dos grãos e o número de vagens por planta.
Além da sede das plantas, dois fatores agravam o cenário operacional:
- Temperaturas elevadas aceleram a evapotranspiração, secando o perfil do solo mais rápido.
- Distribuição irregular das pancadas cria “ilhas” de umidade, dificultando o manejo uniforme.
Custos ocultos e o alívio que não chegou
Entre 28 de outubro e 1º de novembro, chuvas pontuais trouxeram respiro, mas ainda assim ficaram 22% abaixo da média para o período. O volume foi insuficiente para repor a reserva hídrica profunda. Na prática, o produtor pode ter que gastar mais com herbicidas e inseticidas: o estresse abre portas para pragas e plantas daninhas mais agressivas, exigindo aplicações extras não previstas no orçamento inicial.
Cenários para as próximas semanas
Ainda é cedo para cravar números de perdas. A entidade reforça que as estimativas otimistas dependem, agora, de um regime de chuvas regular e volumoso até o fechamento do ciclo. O mercado acompanha dois gatilhos principais:
- Regularização das frentes frias no Centro-Oeste nos próximos 15 dias.
- Evolução do fenômeno La Niña, que costuma secar o Sul e irregular o Norte/Nordeste do estado.
O que observar daqui para frente
Para o tomador de decisão, o sinal é de cautela nas projeções de oferta. O ritmo de vendas antecipadas da safra nova deve ser calibrado ao risco climático real, não apenas à área plantada. Monitorar os boletins semanais de umidade do solo nas regiões dos Parecis e Médio-Norte será o termômetro mais confiável para ajustar expectativas de produtividade e, consequentemente, de preços no mercado físico e futuro.
