A 7ª edição da Feira do Pirarucu de Manejo abre as portas nesta sexta-feira (6) em Santarém com a meta de escoar duas toneladas do peixe nobre em apenas 48 horas. O evento transforma a Praça Barão de Santarém no maior ponto de venda direta da espécie no oeste do Pará. O que parece apenas uma feira de pescado esconde uma engrenagem econômica que movimenta cerca de R$ 1 milhão em dois dias — sem intermediadores.
Seis comunidades, um modelo que desafia a lógica de mercado
Pixuna do Tapará, Tapará Miri, Santa Maria do Tapará, Costa do Tapará, Tapará Grande e Igarapé da Praia. Seis comunidades ribeirinhas que dominam a cadeia completa: da vigilância dos lagos à mesa do consumidor final. Não há atravessadores. O manejador que contou os peixes no lago é o mesmo que negocia o filé na barraca.
Esse modelo elimina até 60% das perdas típicas da cadeia tradicional de pescado amazônico. O peixe sai da água e chega fresco ao cliente no mesmo dia, sem câmaras frias de terceiros nem caminhões de distribuidoras.
O trabalho invisível antes da balança
Cada quilo exposto na feira carrega meses de monitoramento noturno. As famílias realizam contagens populacionais por vocalização — técnica tradicional refinada com apoio científico — e definem cotas de captura que nunca ultrapassam 30% do estoque adulto estimado. Lagos vigiados 24 horas por dia, sete dias por semana, por quem vive daquilo.
O resultado: a população de pirarucu na várzea do Tapará cresceu 42% na última década, segundo dados do Instituto Chico Mendes. A espécie, que esteve ameaçada de extinção nos anos 90, hoje sustenta economias inteiras.
Novidade desta edição: da brasa para o prato
Pela primeira vez, a feira oferece refeições prontas preparadas pelas próprias manejadoras. O cardápio inclui:
- Pirarucu na brasa com molho de tucupi e jambu
- Caldeirada de cabeça — corte nobre descartado pela indústria
- Farofa de pirarucu defumado com castanha-do-pará
A iniciativa transforma subprodutos em margem extra. A cabeça e a carcaça, que virariam ração ou lixo, viram prato principal com ticket médio de R$ 35.
Programação que vai além do balcão
Palestras técnicas sobre certificação de origem, oficina de biojóias com escamas, lançamento do livro “Memórias do Manejo” e jogos educativos para crianças completam a grade. A feira virou vitrine de um ativo intangível: o conhecimento tradicional sistematizado.
Mas o efeito mais relevante aparece nas contas das famílias. Um manejador relatou à organização que a renda da feira equivale a quatro meses de bolsa-família — sem burocracia, sem atraso, sem dependência política.
O que observar daqui para frente
A certificação de origem controlada, em fase final de registro no INPI, pode abrir portas para exportação direta a restaurantes de São Paulo e Europa. Hoje, o pirarucu de manejo certificado chega a valer 3 vezes o preço do peixe de cativeiro no mercado paulistano.
Outro ponto: a pressão por infraestrutura. As comunidades reivindicam fábrica de gelo própria e caminhão refrigerado coletivo — investimentos que reduziriam perdas em mais 15% e permitiriam atender encomendas durante o ano todo, não só nos dois dias de feira.
Enquanto o debate sobre bioeconomia acontece em gabinetes climatizados, a várzea do Tapará já entrega o protótipo funcionando: conservação que paga contas, ciência que respeita o saber local, mercado que elimina o atravessador. A 8ª edição, já confirmada para 2026, deve testar a venda antecipada por aplicativo — o próximo passo para escalar sem perder a alma do negócio.
