Uma conferência em Brasília expôs como redes femininas estão redesenhando o Judiciário e a política — e os números revelam uma janela histórica que se fecha em 2036. O que acontecer nos próximos anos definirá se a representatividade avança ou estagna.
Até sexta-feira (6), a capital federal sedia o evento internacional “Mulheres que movem a Justiça”. O encontro reúne juristas, comunicadoras e ativistas para debater estratégias concretas contra o machismo estrutural e a desinformação misógina.
O dado que muda tudo: 40% dos cargos vitalícios
A presidente da EBC, Antonia Pellegrino, trouxe à tona uma projeção estratégica: pelo menos 40% das vagas vitalícias no Judiciário serão preenchidas na próxima década. Essa renovação massiva abre um corredor sem precedentes para a ocupação feminina de postos de decisão definitiva.
“Atuar em rede, para quem é mulher, é estratégia de sobrevivência”, afirmou Pellegrino. A frase resume a tese central do encontro: a articulação coletiva não é opcional, é condição de permanência e avanço.
O precedente histórico que poucos lembram
Pellegrino citou o “lobby do batom” — aliança suprapartidária de deputadas e senadoras na Constituinte de 1987-1988. Aquele grupo reducido garantiu direitos que sustentam a legislação atual. A lição: organização focada rende resultados desproporcionais.
Hoje, a diferença está na escala. As redes digitais permitem capilaridade que o analógico não oferecia. Mas o inimigo também evoluiu.
Desinformação como arma coordenada
A comunicação pública virou alvo prioritário de grupos extremistas, segundo a presidente da EBC. Não se trata de ruído aleatório: há estratégia articulada para minar credibilidade de mulheres em posições de visibilidade.
O antídoto defendido no encontro passa por três eixos:
- Fortalecimento de redes de verificação e apoio mútuo entre comunicadoras
- Produção de conteúdo jurídico acessível para combater a ignorância sobre direitos
- Pressão institucional por protocolos de acolhimento a denúncias no Judiciário
Quando a lei existe, mas a cultura trava
A advogada e influenciadora Sara Gabriela, criadora da página “Seja a princesa que salva a si mesma”, foi direta: o ordenamento jurídico brasileiro é avançado, mas a aplicação falha onde a misoginia cultural impera. “A informação não deve ser suavizada”, pontuou.
Seu projeto nasceu em 2019, a partir do atendimento a vítimas de violência em comunidades goianas. A constatação: mudança real exige transformação cultural, não apenas normativa.
O divórcio invisível e o trabalho não remunerado
Miriane Ferreira, com mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, expôs uma lacuna silenciosa: mulheres que dedicaram décadas ao trabalho doméstico e de cuidado abrem mão de direitos patrimoniais no divórcio por desconhecerem a lei.
Ela ensina, em linguagem direta, como a contribuição invisível gera direito à partilha. “As mulheres precisam dessa solidariedade uma das outras para mostrar o poder que têm. Nós somos muito desacreditadas”, resumiu.
O “massacre do Judiciário” nas denúncias
Mayra Cotta, criadora da série “Afiadas” (TV Brasil), trouxe um termo forte: “As mulheres estão denunciando mais, mas estão sendo massacradas pelo Judiciário”.
A advogada relatou juízes que “passam pano para assediadores e abusadores todos os dias”. O diagnóstico: não basta aumentar a representatividade numérica sem transformar a cultura de acolhimento nas varas e tribunais.
Voto, narrativa e o racismo estrutural
Thayse Xavier, fundadora da plataforma “Elas trabalham”, conectou a ocupação de espaços de poder ao voto consciente. No mês passado, sua campanha focou em levar mulheres às urnas com recado claro: “Mulheres fora do espaço de poder devem apoiar mulheres que estão nesses lugares”.
Fernanda Amim, diretora do documentário “Reconhecidos”, ampliou a lente: o racismo estrutural no sistema de justiça criminal, evidenciado nas falhas do reconhecimento fotográfico, atinge desproporcionalmente mulheres negras. A narrativa, para ela, é ferramenta de abertura de portas.
O que observar daqui para frente
A renovação de 40% dos cargos vitalícios até 2036 não é previsão — é cronograma. Se as redes atuais conseguirem converter articulação em indicações e nomeações, o perfil do Judiciário muda em uma geração. Se falharem, a janela se fecha por décadas.
Três indicadores práticos para monitorar: editais de promoção e acesso a tribunais superiores, composição de listas tríplices para vagas de quinta constitucional, e taxas de acolhimento de denúncias de assédio e violência de gênero nas corregedorias. O jogo está na mesa. Quem joga em rede, leva vantagem.
