Economia

O ‘Vorcaro do Paraguai’ caiu: o que a polícia encontrou na mansão do dono do Ueno

Mansão de luxo de Federico Vázquez Villasanti em Assunção, alvo de busca policial
Polícia paraguaia vasculha mansão do dono do Ueno Bank em operação contra crimes financeiros.

Federico Miguel Vázquez Villasanti, de 36 anos, fundador e controlador do Ueno Bank, está preso preventivamente no Paraguai. A acusação formal aponta crimes contra o patrimônio de cidadãos e instituições, baseada em operações de crédito suspeitas que teriam beneficiado empresas do próprio banqueiro. A defesa nega irregularidades e pleiteia a prisão domiciliar, mas o que os agentes encontraram na residência dele em Assunção adiciona camadas inesperadas a este enredo.

Na quarta-feira (4), uma operação de busca e apreensão vasculhou a mansão do empresário. Segundo o portal ABC Color, policiais localizaram um “unicórnio gigante” — no jargão do mercado, símbolo de startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão — exposto em um corredor próximo ao quarto do banqueiro. Na garagem, sete carros de luxo e duas picapes, todos na cor preta, somam um valor estimado em US$ 1,4 milhão.

O perfil traçado pelas autoridades e pela imprensa local desenha um paralelo direto com o brasileiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Ambos são herdeiros que assumiram o comando de conglomerados familiares, lideraram expansões agressivas no setor financeiro, colecionam símbolos de ostentação e reagiram com hostilidade a reportagens que questionavam a solidez de suas instituições.

A ascensão meteórica em um império familiar

A história do Grupo Vázquez começa em 1945, com uma oficina mecânica em Assunção. Hoje, o conglomerado reúne mais de 20 empresas, emprega 5.500 pessoas e declara faturamento diário superior a US$ 1 milhão. A Credicentro, financeira fundada pelo pai de Vázquez em 1984, foi o ponto de partida: ele assumiu o cargo de CEO aos 18 anos, em 2008. Em 2022, a Credicentro virou Ueno Holding, controladora do banco digital que deu nome ao grupo.

A formação acadêmica inclui marketing pela Universidade de Miami, especialização em finanças pela Incae Business School e um programa para diretores na IAE Business School, na Argentina. No papel, o currículo é impecável; na prática, a velocidade da expansão do Ueno Bank chamou a atenção de reguladores e concorrentes muito antes da intervenção do Banco Central do Paraguai.

O estopim da crise e a narrativa de defesa

As investigações miram especificamente operações de crédito concedidas a empresas ligadas ao próprio Vázquez. O cerne da suspeita é o desvio de finalidade e o risco oculto repassado a terceiros. Até o momento, o Banco Central paraguaio não revogou a licença da instituição, mas a intervenção sinaliza fragilidades na governança e no controle de risco.

Há dois meses, antecipando o cerco, Vázquez publicou uma carta aberta nas redes sociais. No texto, afirma que o Ueno “opera dentro do sistema financeiro regulado” e que seu desenvolvimento é “avaliado por instituições financeiras, agências de classificação de risco e agentes de mercado”. Questiona: “Por que tanta insistência em desacreditar o Ueno?”. A estratégia retórica espelha a usada por Vorcaro no Brasil: atribuir críticas a interesses concorrenciais, e não a falhas reais.

O que observar nos próximos capítulos

  • Desdobramento das acusações: se as operações de crédito configuram gestão temerária ou fraude contábil.
  • Posição do Banco Central: manutenção da intervenção, liquidação extrajudicial ou devolução do controle aos acionistas.
  • Pedido de prisão domiciliar: a decisão judicial definirá o grau de liberdade do banqueiro para articular a defesa.
  • Contágio no Grupo Vázquez: impacto da crise reputacional nas demais 20 empresas do conglomerado, especialmente no agronegócio e no setor automotivo.

Para investidores e parceiros comerciais, o caso Ueno acende um alerta sobre fintechs de crescimento exponencial lastreadas em grupos familiares opacos. A combinação de governança frágil, expansão de crédito agressiva e concentração de poder no fundador costuma preceder crises de liquidez. Monitorar os relatórios de agências de rating e as comunicações oficiais do regulador paraguaio será essencial para precificar o risco — tanto do banco quanto do ecossistema que o cerca.