Economia

Você não vai acreditar: Como um banco derrubou o presidente e virou pó os títulos…

Colapso do Ueno Bank: impeachment de Santiago Peña e títulos de US$ 350 mi viram pó
A visita do BID Invest expôs a crise que derrubou um presidente e destruiu bilhões em 48 horas.

O colapso do Ueno Bank arrastou o presidente Santiago Peña para um processo de impeachment relâmpago e transformou títulos de dívida de US$ 350 milhões em papéis valendo centavos em menos de 48 horas. Mas a raiz da crise estava exposta meses antes, em uma visita que acendeu todos os alertas possíveis.

O gatilho que ninguém viu: a visita do BID

No início de 2025, técnicos do BID Invest — braço de investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento — entraram na sede do Ueno em Assunção, apelidada de “The Matrix”. Encontraram um escritório de luxo, superlotado de jovens, com almoço de chef privativo para a comitiva. O ostentação contrastava com a missão do banco: atender a população mais pobre do Paraguai.

Os analistas detectaram empréstimos para empresas do próprio grupo controlador, o Grupo Vázquez, acima dos limites legais e mal classificados. A inadimplência declarada era de 2%, metade da média dos concorrentes estabelecidos. O BID Invest, que acabaria emprestando US$ 20 milhões à instituição, não recuperou todo o capital.

Dinheiro público turbinou a máquina

Após a fusão com o Visión Banco em 2024, o Ueno tornou-se o sexto maior do país em depósitos. A escalada coincidiu com a posse de Peña, em 2023. Os depósitos do setor público saltaram para 5 trilhões de guaranis (R$ 4,78 bilhões), representando 29% do total captado pelo banco em junho passado.

  • Depósitos públicos: 29% do total (R$ 4,78 bi)
  • Clientes estreantes: Mais de 1 milhão de paraguaios abriram a primeira conta no Ueno
  • Garantia do FGC local: Cobertura até US$ 38 mil (R$ 209 mil)

A intervenção e o rastro de luxo

Na madrugada de terça-feira (3), o Banco Central interveio declarando insolvência e capital insuficiente. Horas depois, a polícia cumpriu mandado na mansão do controlador Miguel Vázquez, preso preventivamente. Na garagem: um Porsche, um Bentley e um Mercedes-Benz avaliados juntos em mais de US$ 1,4 milhão (R$ 7,7 milhões).

O caos foi imediato. Mais de um milhão de correntistas ficaram sem acesso ao dinheiro. Jogadores da seleção nacional, patrocinados pelo banco, viram milhões de dólares travados. O Congresso aprovou às pressas lei para acelerar o pagamento do seguro-depósito, mas o prazo real de devolução segue incerto.

Fraude contábil e títulos derretendo

Desde setembro, o jornal ABC publicava documentos internos mostrando a preocupação do regulador com a concessão de crédito. A investigação forçou a revisão dos balanços: o índice de solvência despencou para menos da metade do mínimo regulamentar.

O impacto no mercado de capitais foi brutal. Em março, o banco emitiu US$ 350 milhões (R$ 1,93 bi) em bônus internacionais — recorde para dívida corporativa paraguaia. Na terça (3), negociavam a US$ 0,85 por dólar. No fechamento de quinta (5), valiam menos de US$ 0,10. Uma destruição de valor de 88% em dois pregões.

O terremoto político: Cartes vira as costas

A Câmara dos Deputados aprovou o impeachment por unanimidade na quinta (5). O Senado, contudo, rejeitou o pedido de renúncia de Peña — manobra que lhe garantiria mais imunidade — após debandada de parlamentares em protesto. O presidente ganhou 72 horas para apresentar defesa, mas o Senado negou o adiamento.

A virada decisiva veio do ex-presidente Horacio Cartes, líder histórico do Partido Colorado e padrinho político de Peña. Cartes, que teve sanções dos EUA removidas por Trump em outubro passado, declarou apoio ao impedimento. A cisão no partido que domina o Paraguai há 70 anos expõe o vácuo de poder. O vice-presidente também enfrenta questionamentos, ampliando o risco de instabilidade sistêmica.

O que observar daqui para frente

Três frentes ditam o curto prazo: a velocidade efetiva do pagamento aos depositantes cobertos pelo seguro; a definição da sucessão presidencial num Congresso fragmentado; e a resposta dos credores internacionais aos default dos bônus do Ueno e à imagem de risco país. Luis Breuer, ex-diretor do FMI e do Banco Central paraguaio, resume: se a instabilidade política se prolongar, o choque deixará de ser setorial e contaminará a economia real. O Paraguai, vitrine de estabilidade na região, testa agora a solidez de suas instituições.