Educação

O segredo por trás das mulheres que voltam a estudar aos 70 para o Enem…

Mulheres idosas estudando em cursinho popular para o Enem no Rio de Janeiro
Mães e avós acima de 70 anos desafiam a idade e voltam aos estudos para realizar o sonho da faculdade.

Neste domingo, 8 de novembro, milhares de mulheres entram nas salas do Enem com um perfil que foge à estatística tradicional: são mães, avós e trabalhadoras que decidiram que a idade não define o prazo de validade dos sonhos. O que move essa silenciosa revolução nos cursinhos populares do Rio de Janeiro?

A resposta passa por muito mais do que apostilas e aulas de redação. Envolve uma estrutura de acolhimento que transforma a vulnerabilidade social em combustível para a aprovação.

O rosto invisível da persistência

Zélia José dos Santos tem 72 anos. Criou filhos, trabalhou a vida toda fora de casa e, só agora, resolveu “cuidar de si”. O objetivo: cursar Serviço Social. Paula Cristina, 55, técnica de enfermagem, convive com fibromialgia e já tirou nota para Fisioterapia, mas insiste: quer Medicina. Ambas são alunas do pré-vestibular social do Sintuperj, no campus Maracanã da Uerj.

Elas não são exceção. Mulheres acima dos 50 anos representam 20% a 30% do corpo discente do curso, segundo o coordenador administrativo Carlos Eduardo Silva de Lourdes. Um contingente que desafia a lógica de mercado de trabalho e expande o conceito de “capital humano”.

Por que o modelo popular funciona onde o privado falha

A mensalidade de R$ 162 — com 10% de desconto para servidores da Uerj e bolsas integrais para vulneráveis — é apenas a porta de entrada. O diferencial está no que o curso chama de “atendimento psicossocial”:

  • Aulas de autocuidado e saúde mental integradas à grade curricular
  • Cestas básicas distribuídas mensalmente a alunos e voluntários
  • Projetos de reforço de base para quem está há décadas fora da sala de aula
  • Preparação temática antecipada: tecnologia, cidadania, meio ambiente, eixos social e político

“A gente não dá só aula”, resume a coordenadora pedagógica Raíssa Tabajara. A frase sintetiza um modelo que trata o aluno como sujeito completo, não apenas como um CPF em busca de nota.

O Enem 2026 e a aposta na desinformação

No primeiro dia de prova, os candidatos enfrentam 90 questões de linguagens e ciências humanas mais a redação. A professora Érika Rodrigues, do Sintuperj, antecipa um eixo central: tecnologia e desinformação.

“Um dos pilares da interpretação é reconhecer uma desinformação”, afirma. O curso trabalhou o tema ao longo do ano, conectando inferência textual com letramento digital — habilidade que vale pontos no exame e, mais importante, protege o eleitor e o consumidor.

Para a redação, o conselho é direto: coerência argumentativa e repertório sociocultural relacionado à tese, não apenas citado. “Se eles treinarem, conseguem”, garante Érika.

Doze mil aprovações e uma lição de gestão social

Criado em 1998 por servidores da Uerj para formação interna, o pré-vestibular abriu as portas à comunidade e já aprovou mais de 2 mil alunos em universidades públicas federais e na própria Uerj. O número impressiona, mas o ativo real é a metodologia replicável: baixo custo, alta inclusão, suporte integral.

Em um país onde 11,3 milhões de pessoas acima de 60 anos não concluíram o ensino fundamental (dados do IBGE), iniciativas como essa deixam de ser “projetos sociais” e passam a ser infraestrutura de desenvolvimento econômico.

O que observar daqui para frente

A próxima edição do Enem tende a ampliar a presença de candidatos 50+. Empresas de edtech, fundos de impacto e gestores públicos deveriam mapear o modelo Sintuperj: custo por aluno, taxa de retenção, índice de aprovação e, principalmente, a arquitetura do suporte psicossocial.

O envelhecimento da população não é apenas um desafio previdenciário. É um mercado de educação continuada mal atendido. Quem decifrar a equação — acessibilidade financeira + acolhimento humanizado + preparação técnica direcionada — terá nas mãos não só um negócio escalável, mas um vetor de transformação social mensurável.

Enquanto isso, Zélia e Paula fazem a prova domingo. O resultado sai em janeiro. Mas a vitória mais relevante — a de recusar a invisibilidade — já foi conquistada na sala de aula.