Justiça

O segredo que mulheres usam há séculos para ocupar espaços de poder

Mulheres em conferência articulando redes para ocupar cargos no Judiciário
Conferência em Brasília debate como redes femininas podem furar o teto de vidro na justiça

Em Brasília, uma conferência internacional reuniu comunicadoras, juristas e influenciadoras para defender uma tese direta: a articulação em rede é a ferramenta mais eficaz para furar o teto de vidro no sistema de justiça. O evento segue até sexta-feira, mas o dado que deveria estar no radar de todo líder institucional já foi colocado na mesa: 40% dos cargos vitalícios do Judiciário serão preenchidos na próxima década.

A pergunta que fica é: quem vai ocupar essas cadeiras?

A janela de 40% que ninguém está olhando

A presidente da EBC, Antonia Pellegrino, trouxe o número à tona durante a mesa de abertura. Não se trata de projeção otimista, mas de demografia pura: aposentadorias compulsórias e criaturas de novos tribunais abrirão espaço para uma renovação sem precedentes na cúpula do Poder Judiciário.

Para quem acompanha governança corporativa ou gestão de talentos, o paralelo é imediato. Quando 40% de posições estratégicas ficam vagas num horizonte de dez anos, organizações que não tiverem pipeline preparado perdem a janela. No setor público, a lógica não é diferente — só que as regras de nomeação tornam o processo mais opaco.

  • Cargos vitalícios: ministros de tribunais superiores, desembargadores, juízes federais e estaduais
  • Prazo: próxima década (2026–2036)
  • Mecanismo: aposentadoria compulsória aos 75 anos + expansão de varas e tribunais

Por que redes não são networking — são sobrevivência

Pellegrino foi direta: “Atuar em rede, para quem é mulher, é estratégia de sobrevivência”. A frase resume o que a literatura de ciência política chama de capital social de ponte: conexões que atravessam hierarquias e partidos, não apenas círculos de afinidade.

O exemplo histórico citado foi o “lobby do batom” — a aliança suprapartidária de parlamentares na Constituinte de 1987-88. Poucas mulheres, articuladas, garantiram direitos que vigoram até hoje: licença-maternidade de 120 dias, igualdade salarial, proteção contra violência doméstica.

Mas o cenário atual adiciona uma variável nova. Grupos radicais, segundo Pellegrino, operam com estratégias articuladas de desinformação. A comunicação pública virou alvo frequente. Redes de apoio entre mulheres, nesse contexto, funcionam como infraestrutura de verificação e resposta rápida — algo que empresas já contratam agências especializadas para fazer.

O massacre silencioso no Judiciário

O contraponto mais duro veio da advogada Mayra Cotta, criadora da série “Afiadas”. “As mulheres estão denunciando mais, mas estão sendo massacradas pelo Judiciário”, afirmou. Não é retórica: ela citou juízes que “passam pano para assediadores e abusadores todos os dias”.

O dado expõe um gargalo que não se resolve só com mais mulheres no poder. A advogada Sara Gabriela, do projeto “Seja a princesa que salva a si mesma”, completou: o ordenamento jurídico brasileiro é avançado, mas a aplicação exige mudança cultural. “A informação não deve ser suavizada.”

Miriane Ferreira, com mais de dois milhões de seguidores no Instagram, trouxe o impacto patrimonial. Mulheres que dedicaram décadas ao trabalho doméstico e de cuidado abrem mão de direitos na partilha de bens por não reconhecerem o valor econômico dessa contribuição. A desinformação, aqui, custa caro — e em dinheiro.

O que observar nos próximos 18 meses

Três movimentos merecem monitoramento contínuo por quem atua em estratégia, compliance ou relações institucionais:

  • Editais de nomeação: a transparência nos critérios de escolha para vagas vitalícias será teste de maturidade institucional.
  • Dados de acolhimento: tribunais começam a publicar métricas sobre como denúncias de assédio e violência são recebidas. A série histórica dirá se há mudança real.
  • Financiamento de redes: iniciativas como “Elas trabalham” e projetos de educação jurídica feminina dependem de aporte sustentável. Quem financia, influencia a agenda.

A conferência termina sexta, mas a articulação não. Para o setor privado, a lição é pragmática: redes formais de mentoria, patrocínio e troca de informação não são “programas de diversidade”. São infraestrutura de sucessão. Quem ignora isso chega atrasado na fila dos 40%.