Economia

Lula chama aliados para definir rumo fiscal: o que está em jogo para o seu bolso

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia hoje uma maratona de conversas que pode ditar o ritmo da economia nos próximos meses. A primeira rodada reúne apenas nomes de sua confiança mais próxima, mas o sinal enviado ao mercado é de que o diagnóstico sobre a dívida pública e os juros está prestes a mudar.

Não há anúncio de medidas concretas ainda. O que está em jogo é a narrativa que o governo vai construir para acalmar investidores e, ao mesmo tempo, manter as promessas de campanha. O primeiro teste vem no domingo, com o pronunciamento oficial.

Quem senta à mesa nesta quinta-feira

O encontro no Palácio do Planalto tem lista restrita. Estarão presentes o vice-presidente Geraldo Alckmin, os ministros Fernando Haddad (Fazenda), Bruno Moretti (Planejamento), Esther Dweck (Gestão), além dos presidentes do BNDES, Aloizio Mercadante, e dos ex-ministros Guido Mantega e Luciano Coutinho.

Ausência notada: o governador do Piauí, Rafael Fonteles, cotado para a Fazenda em um eventual quarto mandato, não foi chamado. A decisão sinaliza que, por ora, Haddad segue como interlocutor central da política econômica.

Por que o governo abriu a escuta agora

A pressão não veio apenas de fora. Foi o próprio ministro Dario Durigan quem sugeriu ampliar o círculo de debates, trazendo economistas ortodoxos e heterodoxos nas próximas semanas. O objetivo declarado: dividir diagnósticos e testar propostas antes de fechar qualquer pacote.

O pano de fundo é conhecido: dólar em alta, Bolsa em queda e a trajetória da dívida pública assustando analistas. Na semana passada, o Ibovespa despencou 18% — pior desempenho semanal desde 2020 — enquanto a moeda americana subiu 9,18%, maior salto em 18 anos.

O que o Banco Central fez (e não fez)

Na quarta-feira, o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo cinco cortes seguidos. O comunicado citou “aumento das incertezas”, “piora das expectativas de inflação” e “desaceleração da atividade”. Não deu sinal de quando volta a cortar.

A decisão pegou o governo em cheio. Horas antes, Lula já articulava os encontros desta quinta. A pausa nos juros aumenta o custo da dívida e reduz o espaço fiscal para programas sociais — justamente a promessa central da campanha.

O que está na mesa de negociação

  • Âncora fiscal crível: mercado cobra regra clara para conter a dívida/PIB
  • Revisão de gastos: quais despesas podem ser adiadas ou redesenhadas
  • Receitas extraordinárias: privatizações, dividendos de estatais, tributação de fundos exclusivos
  • Coordenação com BC: fim da guerra de narrativas entre Planalto e autoridade monetária

A proposta do economista André Lara Resende — criar conselho conjunto para metas fiscais e monetárias, com Selic caindo gradativamente a 7,5% — foi descartada por Durigan. “Tabelamento de juros não está em discussão”, afirmou o ministro.

Empresários entram na fila

Além dos economistas, banqueiros, construtores e representantes da indústria já procuraram o governo. Agendas estão sendo costuradas para as próximas semanas. O recado do setor privado é único: previsibilidade. Sem ela, investimentos ficam parados e o crédito encarece.

O discurso de domingo (8) deve repetir a fórmula: preocupação com juros e dívida, compromisso com estabilidade, promessas de campanha honradas “de forma sustentável”. A dúvida é se o mercado vai comprar a versão 2023 desse roteiro.

O que observar daqui para frente

Três datas merecem marcação no calendário: o pronunciamento de domingo, a próxima reunião do Copom em dezembro e a apresentação do Orçamento 2024. Se o governo entregar uma regra fiscal com gatilhos automáticos e metas de resultado primário críveis, a tensão arrefece. Se optar por promessas genéricas, o dólar testa R$ 5,60 e a Selic não cai tão cedo.

Para quem gere negócios ou carteiras, a lição é prática: mantenha hedge cambial, alongue prazos em renda fixa e evite alavancagem até que o quadro fiscal clareie. O custo de errar o timing agora é medido em pontos-base de Selic e centavos de dólar — e a conta chega rápido.