Deputados da oposição protocolaram pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña nesta quarta-feira (4), citando a liquidação do banco digital Ueno como motivação central. A instituição, que detinha cerca de 3 milhões de clientes e administrava US$ 850 milhões em recursos públicos, foi fechada pelo Banco Central na véspera por insolvência. O desfecho político depende agora de uma votação de dois terços na Câmara, ainda sem data definida.
O movimento expõe uma teia de relações entre o poder Executivo e o Grupo Vázquez, controlador do Ueno, que levanta dúvidas sobre a solidez do sistema financeiro paraguaio. Investidores e empresários com exposição ao país monitoram de perto se o contágio ficará restrito a essa instituição.
A anatomia da falência: números que assustam
O Ueno não era uma fintech qualquer. Era o maior emissor de cartões de crédito do Paraguai e canal de pagamento de benefícios previdenciários do Instituto de Previdência Social (IPS). Após ajustes contábeis, seu índice de solvência despencou para menos da metade do mínimo regulatório.
- Clientes afetados: ~3 milhões (incluindo aposentados dependentes do IPS).
- Recursos públicos sob gestão: ~US$ 850 milhões (fundos de previdência e IPS).
- Déficit identificado: Empréstimos a empresas ligadas ao próprio grupo controlador.
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial na terça-feira (3) para proteger depositantes. No dia seguinte, agências amanheceram fechadas e filas de correntistas — muitos idosos — formaram-se nas portas sem acesso ao dinheiro.
O elo perdido: a trajetória de Peña no Grupo Vázquez
O cerne da acusação política reside no passado recente do presidente. Peña foi acionista do Grupo Vázquez até março de 2025, meses antes de assumir a presidência em 2023, e havia sido ministro da Fazenda no governo Horacio Cartes. A oposição aponta conflito de interesses direto: o chefe do Executivo teria se beneficiado de regras flexibilizadas para o banco enquanto era sócio.
Além do impeachment, a Procuradoria já denunciou formalmente 27 pessoas e bloqueou bens dos investigados. Oito diretores do Ueno, incluindo o CEO Miguel Vázquez, estão presos. A investigação criminal apura desvio de recursos previdenciários e suposta cobertura do Banco Central sobre a real saúde da instituição.
Danos colaterais: renúncia no BC e tremores no mercado
A crise derrubou Carlos Carvallo da presidência do Banco Central. Ele comandou o próprio Ueno até agosto de 2023 e era alvo de críticas pela supervisão considerada frouxa. Sua saída foi classificada como necessária para blindar a autarquia de disputas políticas.
Nos mercados, o medo de contágio bateu à porta. Títulos em dólar do Ueno com vencimento em 2031 e a própria dívida soberana do Paraguai sofreram pressão vendedora. Relatos de instabilidade nos aplicativos de outros bancos surgiram nesta quarta-feira, provocados pelo volume atípico de transferências de ex-clientes do Ueno.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) e o próprio BC emitiram notas garantindo que o sistema opera normalmente e que o caso é isolado. Peña promulgou lei para acelerar pagamentos via Fundo de Garantia e prometeu que “responsáveis responderão sem exceções”.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o impacto real nos negócios nas próximas semanas:
- Votação do impeachment: A base governista tem maioria, mas rachaduras internas podem surgir se a pressão popular aumentar.
- Velocidade do ressarcimento: A eficácia do Fundo de Garantia em devolver os US$ 850 mi ditará a confiança no arcabouço de proteção ao depositante.
- Investigação criminal: Novas delações ou provas de interferência política no BC podem ampliar o escândalo além do setor financeiro.
Para quem opera com ativos paraguaios ou tem parceiros comerciais no país, a lição imediata é monitorar a liquidez de curto prazo dos bancos médios e a disposição política do Congresso em blindar ou sacrificar o presidente. O desfecho desse processo dirá se o Paraguai consegue isolar um caso de governança corporativa ou se entra em uma crise institucional de consequências imprevisíveis.
