Economia

Fazenda pressiona ANTT: abertura do mercado de ônibus interestadual trava há anos

Ônibus interestaduais em rodovia brasileira simbolizando mercado concentrado e regulação pendente
Frota de ônibus interestaduais em estrada: mercado aguarda abertura prometida desde 2023.

O Ministério da Fazenda exigiu que a ANTT acelere a implementação da resolução que deveria abrir o mercado de transporte rodoviário interestadual de passageiros — norma publicada em 2023 que, até hoje, não saiu do papel. A cobrança expõe um gargalo que trava a entrada de novos players e mantém rotas nas mãos de poucos grupos.

Para empresários e investidores do setor, o recado é claro: a janela de oportunidade segue fechada, e a concentração de mercado persiste sem data para acabar.

O que o parecer da Fazenda determina

A Subsecretaria de Acompanhamento Econômico e Regulação recomendou, na agenda regulatória da ANTT para 2027/2028, a realização de uma Análise de Resultado Regulatório (ARR) sobre a resolução de abertura. O objetivo: medir os efeitos da norma, identificar entraves e propor ajustes para que o regime de autorização funcione na prática.

O documento, assinado pela subsecretária Cristiane Landerdahl de Albuquerque e pela equipe técnica de transportes, aponta que nenhuma janela de abertura ordinária foi realizada desde a publicação da regra. A única tentativa — a Janela Extraordinária nº 01/2024 — aberta em março do ano passado, ainda não foi concluída.

Números que mostram o tamanho do atraso

A primeira janela extraordinária previa autorizações para 47.291 mercados, divididos entre:

  • 38.379 mercados desassistidos (sem operação regular)
  • 8.912 mercados monopolizados (operados por uma única empresa)

Após idas e vindas, a agência só definiu quais mercados seriam ofertados em 2025. O processo de seleção e outorga, contudo, segue parado.

Concentração real: o que dizem os dados de mercado

Segundo a Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia), o regime de autorizações existe por lei desde 2014, mas a realidade de 2025 expõe a falha:

  • Dos 33 mil mercados vigentes, cerca de 25 mil surgiram de decisões judiciais — não de abertura regulatória
  • Nos últimos dois anos, a ANTT recebeu aproximadamente 70 mil solicitações de autorização
  • Mais de 60% dos mercados operam sob regime de empresa única
  • 80% das rotas têm no máximo duas operadoras ativas

O cenário confirma o que novos entrantes denunciam: a barreira de entrada não é técnica, é regulatória.

Por que a ARR pode mudar o jogo

A análise de resultado regulatório não é burocracia. Ela obriga a agência a confrontar a norma com a realidade: por que as janelas não abrem? Quais exigências travam o processo? Onde a regra cria insegurança jurídica para quem quer investir?

Sem esse diagnóstico, a ANTT corre o risco de repetir os mesmos erros nas próximas janelas — se elas existirem.

O que observar daqui para frente

A inclusão da ARR na agenda 2027/2028 não garante execução imediata, mas cria um compromisso formal. Investidores e operadores devem monitorar três sinais:

  • Publicação do cronograma da ARR pela ANTT
  • Definição de nova janela ordinária de abertura — a primeira desde 2023
  • Resposta da agência aos 70 mil pedidos represados

Enquanto a regulação não anda, o mercado segue concentrado, os preços sem pressão competitiva e os passageiros sem alternativas. A bola está com a ANTT — e o relógio correndo.