Economia

O segredo de 100 anos que virou café premiado no Ceará…

Sâmia Nápoles segurando pacote de Café Nápoles arábica 100% cearense na feira do agronegócio
Professora Sâmia Nápoles apresenta o Café Nápoles, único arábica 100% cultivado no Ceará, na maior feira do agronegócio estadual.

Aos 30 anos, a professora Sâmia Nápoles estreou como expositora na maior feira do agronegócio cearense com um produto que carrega um século de história familiar. O Café Nápoles nasceu de uma promessa feita ao avô Chico Cravo, falecido aos 100 anos em 2023, e hoje representa o único café 100% arábica cultivado inteiramente em solo cearense.

Mas o que torna esse grão diferente de tudo que você encontra nas prateleiras? A resposta está na forma como ele cresce — e no que vive ao redor dele.

Uma herança plantada na sombra da Mata Atlântica

Na Serra de Aratuba, no Maciço de Baturité, os caçafeeiros da família não crescem em fileiras expostas ao sol. Eles se desenvolvem sob a copa de árvores centenárias, integrados a um sistema agroflorestal que preserva a biodiversidade local. Não há adubos químicos, nem irrigação artificial, nem mistura de grãos de outras origens.

O resultado é um café de sombra, colhido uma única vez por ano, durante um período de aproximadamente 30 dias. Cada etapa — da separação na água à torra no fogão a lenha — é feita manualmente. Da colheita à embalagem final, o processo leva cerca de três horas.

O ciclo invisível que garante a qualidade

O segredo que ninguém conta está nas abelhas. A família mantém colmeias de uruçu amarela — abelhas nativas sem ferrão — espalhadas pela mata e entre os cafeeiros. Elas polinizam o café naturalmente, enquanto o cafezal oferece alimento e abrigo.

O mel dessas abelhas também é comercializado (embalagens de 30 ml e 40 ml a R$ 5), criando uma segunda frente de receita 100% ligada ao mesmo ecossistema. A colheita do mel respeita o habitat: retira-se o mel, tampa-se a entrada com barro ou galho, e a colmeia segue intocada.

  • Café em grãos ou moído: 250g, 500g, 1kg e versão degustação de 80g (≈7 xícaras)
  • Preços: R$ 10 a R$ 30
  • Torras disponíveis: clara, média e escura
  • Mel de uruçu amarela: 30 ml e 40 ml por R$ 5

Do sítio para a vitrine: a estreia na Expoece

A 70ª edição da Exposição Agropecuária e Industrial do Estado do Ceará (Expoece), em Fortaleza, foi o palco escolhido para o lançamento oficial. O evento segue até 8 de novembro no Parque de Exposições Governador César Cals e reúne negócios, animais, shows e premiações.

Além do café e do mel, Sâmia levou biscoitos sabor café — mais uma forma de agregar valor à matéria-prima da família. O pai, que trabalha em cafezais há décadas, cuida do cultivo. O marido, Victor Nápoles, divide a gestão do negócio. Sâmia concilia tudo com a conclusão da graduação em Letras e o trabalho como professora.

O que observar nos próximos passos

A marca ainda está no início da distribuição comercial, mas o modelo já prova viabilidade: produto de nicho, margem artesanal, apelo sustentável real e origem rastreável. Para quem acompanha o mercado de cafés especiais, o Maciço de Baturité entra no radar como nova origem de terroir diferenciado — com altitude, sombra nativa e manejo regenerativo.

Se a logística de expansão acompanhar a qualidade do grão, o próximo movimento natural será a entrada em cafeterias de especialidade e e-commerce nacional. O Ceará, historicamente fora do mapa cafeeiro, pode estar escrevendo um novo capítulo — e desta vez, com assinatura de família.