México e Argentina eliminaram impostos de importação para componentes e veículos eletrificados enquanto o Brasil retoma as alíquotas. A divergência cria uma assimetria competitiva que pode redirecionar bilhões em investimentos nos próximos anos. Entender o tamanho do risco exige olhar além das manchetes.
O xeque-mate mexicano: tarifa zero para quem já produz
Em 13 de outubro, o governo mexicano reduziu de 10% para zero a tarifa de importação de componentes destinados à montagem de veículos (regimes SKD e CKD). A medida vale por cinco anos, mas tem alvo cirúrgico: apenas 11 fabricantes com fábricas ativas no país — entre elas Audi, BMW, Ford, GM, Honda, Hyundai, Kia, Mazda, Nissan, Stellantis, Toyota e Volkswagen — podem acessar o benefício.
A condição é clara: importar peças desmontadas agora para ganhar tempo e, gradualmente, nacionalizar etapas de produção. O México exporta mais de 80% do que fabrica; o Brasil, menos de 30%. Essa diferença estrutural explica por que a estratégia mexicana foca em custo logístico e velocidade de adaptação à eletrificação, não em mercado interno.
Para Rogelio Golfarb, ex-vice-presidente da Ford e ex-presidente da Anfavea, a jogada é defensiva: as plantas mexicanas precisam incorporar tecnologia de baterias e software sem perder competitividade frente aos preços chineses. “Eles olham a escala global e a competitividade na exportação”, resume.
Argentina aposta na demanda para puxar a oferta
O caminho portenho é híbrido. Desde 2025, o país permite a entrada anual de até 50 mil veículos elétricos e híbridos com alíquota zero — antes era 35%. O programa dura cinco anos e, em setembro de 2026, o teto de preço elegível foi ampliado para faixas entre US$ 16 mil e US$ 35 mil, conforme a propulsão.
A lógica espelha o Brasil de alguns anos atrás: baratear o acesso, criar volume e, com a demanda provada, atrair fábrica. O diferencial é o RIGI (Regime de Incentivo para Grandes Investimentos), criado em 2024 e expandido em fevereiro de 2026 para incluir mobilidade elétrica. Oferece estabilidade regulatória por 30 anos, benefícios tributários e aduaneiros.
O primeiro grande caso: a Toyota teve aprovado, em 22 de outubro, um aporte de US$ 1,25 bilhão para uma terceira linha em Zárate (Buenos Aires), destinada a uma picape híbrida convencional e, possivelmente, um SUV.
A porta dos fundos: acordos comerciais que zeram o imposto para o Brasil
México e Argentina não competem apenas com incentivos internos. Ambos têm acordos automotivos com o Brasil que permitem exportar veículos para cá com tarifa zero — desde que cumpram regras de origem (percentual mínimo de conteúdo regional e processos produtivos locais).
Na prática, uma montadora que instale operação na Argentina ou no México e atenda aos requisitos pode abastecer o maior mercado da América Latina sem pagar o imposto de importação de 35% (ou 18% para híbridos/elétricos na regra brasileira atual). É um atalho competitivo poderoso.
Custo de produção: onde o México vence e a Argentina corre atrás
Um estudo da PwC encomendado pela Anfavea (2019) mostrou que fabricar no México custava 18 pontos percentuais a menos que no Brasil antes de impostos sobre venda — diferença puxada por materiais e logística. Considerando a carga tributária total, a vantagem saltava para até 44 pontos percentuais, dependendo do modelo.
A Argentina, historicamente, tem custo de fabricação superior ao brasileiro (tributos, escala, produtividade). O RIGI nasceu para comprimir essa diferença em projetos de grande porte.
- México: vantagem de custo estrutural + foco exportador + tarifa zero condicionada a 11 players.
- Argentina: abertura de demanda (50 mil veículos/ano) + RIGI (30 anos de estabilidade) + aporte real (Toyota: US$ 1,25 bi).
- Brasil: retomada gradual de tarifas (18% a 35% em eletrificados) + programa Mover (descarbonização) + mercado interno de 2,3 milhões de unidades/ano.
O que observar daqui para frente
A disputa não se resolverá apenas no campo tributário. Infraestrutura de recarga, maturidade da base de fornecedores (Tier 1 e Tier 2), segurança jurídica e custo de capital pesarão tanto quanto os incentícios de largada. O Brasil tem o maior mercado consumidor da região e um parque industrial diversificado — ativos que não se replicam por decreto.
Para o executivo ou investidor, o sinal de alerta está na velocidade: enquanto o Brasil debate a transição, México e Argentina já moveram as peças. Acompanhar a execução do RIGI argentino e a adesão real das 11 montadoras ao regime mexicano nos próximos 12 meses dirá se a assimetria virou vantagem duradoura ou apenas alívio temporário.
