Economia

Alimentos sobem 1,35%: o alívio escondido no fim do mês

Gráfico da inflação de alimentos em São Paulo mostra alta de 1,35% em outubro com desaceleração na última semana segundo Fipe
Variação de preços dos alimentos na cidade de São Paulo medida pela Fipe em outubro de 2024.

A inflação dos alimentos acelerou para 1,35% em outubro, mais que triplicando o ritmo de setembro, mas a pressão arrefeceu na última semana do mês. O dado contrasta com a alta de 1,38% registrada na quadrissemana anterior, sinalizando uma possível perda de fôlego no varejo.

Os números são da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), que monitora a variação média de preços na cidade de São Paulo comparando blocos de quatro semanas. Entender essa dinâmica é essencial para quem gere custos ou investe no setor.

A carne que puxou a fila

A proteína animal foi o grande motor da alta mensal. A carne bovina subiu 3,8% apenas em outubro, acumulando 13% de avanço no ano para o consumidor paulistano. No campo, a arroba do boi gordo firmou-se em R$ 390, repassando custos diretos para a gôndola.

Esse movimento reflete a oferta restrita de animais terminados, cenário que não deve se inverter no curto prazo. Para o varejo, a margem de manobra segue apertada.

Arroz e óleo tiram o pé do acelerador

Itens que vinham pressionando o orçamento doméstico há semanas deram sinais de trégua. O óleo de soja, que chegou a acumular 4,70% na segunda quadrissemana, fechou outubro com alta de apenas 1,59%.

O arroz, beneficiado pela estabilidade dos preços no campo, parou de subir no varejo, embora ainda carregue ganho de 6% em 30 dias. A combinação de safra favorável e câmbio ajuda a conter novos impulsos.

  • Óleo de soja: 4,70% (meio do mês) → 1,59% (fechamento)
  • Arroz: estabilidade no varejo, +6% no acumulado mensal

Chuva encarece o “in natura”

Enquanto grãos e carnes ditam o ritmo estrutural, o clima castiga os perecíveis. Dificuldades de colheita e logística elevaram em 5% o grupo dos produtos in natura em outubro. Tomate e cebola lideraram as altas, penalizando especialmente o pequeno varejo e o food service.

A dependência de curtos ciclos de produção torna essa categoria volátil, mas sensível a janelas de tempo seco — que ainda não se confirmaram de forma consistente.

O cenário para novembro começa diferente

Os primeiros dias do mês mostram estabilidade nos preços de referência no campo. A saca de arroz mantém-se em R$ 82 no Rio Grande do Sul; a soja, em R$ 152 no Paraná; o café arábica, em R$ 1.600 em Minas Gerais; e a arroba do boi segue sem movimentos bruscos.

Mas o efeito mais relevante aparece no horizonte climático. O El Niño, já ativo, tem previsão de intensificação até o primeiro semestre de 2025, ameaçando safras e logística no Sul e Sudeste.

Exportações dão o tom da demanda externa

O ritmo de embarques segue forte, disputando a oferta interna. Em outubro, saíram 6 milhões de toneladas de soja e 5,6 milhões de milho. Para novembro, a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) projeta mais 3,3 milhões de soja e 6 milhões de milho.

Esse volume sustenta os patamares de preços no produtor, limitando o espaço para quedas profundas no atacado mesmo com a entrada da safra de verão.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão a trajetória dos próximos meses: a intensidade real do El Niño sobre a safra 2024/25, o ritmo das exportações frente ao câmbio e o ciclo de abate bovino. A desaceleração semanal de outubro é um alívio tático, não uma reversão de tendência. Quem compra ou precifica alimentos deve manter hedge de curto prazo e estoques estratégicos nos itens sensíveis a clima.