Economia

O segredo por trás da “fritura” de Fonteles e a disputa real pela Fazenda…

Governador Rafael Fonteles em destaque com símbolos do Ministério da Fazenda e Palácio do Planalto ao fundo
Rafael Fonteles perde força para Ministério da Fazenda após articulação interna expor fragilidades políticas.

O governador Rafael Fonteles (PT-PI) despencou nas apostas para comandar o Ministério da Fazenda após uma articulação interna que expôs fragilidades políticas e uma regra de ouro do poder: ministros “indemissíveis” travam a gestão. O presidente Lula avalia, agora, alternativas que não exijam renúncia de mandato nem criem constrangimentos hierárquicos.

Por que a “indemissibilidade” virou obstáculo intransponível

A resistência ao nome do governador piauiense não parte da oposição, mas do próprio entorno presidencial. Auxiliares diretos de Lula argumentam que, ao renunciar ao governo do Piauí para assumir a Esplanada, Fonteles se tornaria intocável.

Demiti-lo, no futuro, significaria destruir uma carreira política construída com apoio do Planalto. Na prática, o ministro ganharia status de “primeiro-ministro” da economia, sem a contrapartida da subordinação direta ao presidente.

O fator Brasília: teste de fogo que Fonteles não fez

Outro peso na balança é a falta de rodagem na capital federal. Fonteles nunca ocupou cargo no Executivo federal nem no Congresso Nacional. Para a equipe de Lula, a Fazenda exige alguém que conheça os atalhos regimentais, a pressão do Centrão e a dinâmica do Tribunal de Contas da União no dia a dia.

Relatos que chegaram ao Palácio do Planalto sobre supostas reuniões antecipadas do governador com agentes de mercado funcionaram como combustível extra. A leitura interna: ele teria “sentado na cadeira” antes da hora, violando a hierarquia e a discrição exigidas para o cargo.

Fonteles nega os encontros e afirma não ter discutido cargos ou política econômica com o presidente.

Alckmin sobe nas apostas, mas carrega o mesmo vício de origem

Com a queda do governador piauiense, o vice-presidente Geral Alckmin (PSB) ganhou força nas bolsas de apostas. A vantagem: trânsito livre no Congresso e no setor produtivo, além de uma equipe de economistas respeitada pronta para ser montada.

O problema, porém, é idêntico. Como vice-presidente, Alckmin também é “indemissível”. Substituí-lo seria um trauma institucional. Um auxiliar presidencial resumiu o dilema: “Colocar um vice na Fazenda é quase instalar um primeiro-ministro na pasta mais sensível da Esplanada”.

Alckmin, assim como Fonteles, tem mantido conversas com empresários e integrantes do mercado para colher sugestões, segundo apurou a reportagem. O vice-presidente não comenta o assunto.

Os nomes da “terceira via” interna: Camilo Santana e o retorno de Haddad

A busca por uma solução que una lealdade, capacidade de gestão e demissibilidade colocou dois nomes de volta ao centro do tabuleiro:

  • Camilo Santana (PT-CE): Senador e ex-governador do Ceará, testado na gestão estadual e no Congresso. Cogitado para Segurança Pública, Educação ou Casa Civil. Se não for para a Casa Civil, abre-se espaço para outro nome.
  • Fernando Haddad: Ex-ministro da Fazenda. Não está na lista para voltar à pasta, mas é o plano B natural para a Casa Civil caso Camilo vá para outra área.

Essa engenharia permite que Lula mantenha o controle político sem criar um “superministro” blindado pela hierarquia constitucional.

Durigan segura a ponta e ganha crédito com o mercado

Enquanto a sucessão não é definida, o secretário-executivo Dario Durigan assume o protagonismo. Ele recebeu aval direto de Lula para desmentir rumores sobre uma suposta consulta a André Lara Resende sobre política de juros — episódio que gerou ruído no fim de semana.

O ministro interino usou a autorização presidencial para criticar tecnicamente a proposta de Lara Resende, apontando “deficiências”, e reforçar o compromisso com o ajuste fiscal. A postura rendeu elogios do mercado financeiro, mas irritou alas do PT que questionam a legitimidade de um advogado para fazer diagnósticos macroeconômicos.

Paradoxalmente, cada intervenção de Durigan em defesa do rigor fiscal fortalece seu nome perante investidores, ainda que ele não figure na lista oficial de sucessores.

O prazo real que ninguém comenta: a LDO e o Orçamento de 2027

Acima das especulações sobre nomes, a área econômica aponta um prazo duro e inegociável. A votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e do Orçamento de 2027 precisa ocorrer ainda este ano.

Se o Congresso não aprovar as medidas de ajuste necessárias para fechar as contas, a votação desliza para 2025. O cenário então muda radicalmente: um Parlamento renovado e mais hostil — fortalecido pela oposição nas urnas municipais — terá o poder de ditar as regras fiscais.

O que observar daqui para frente

A definição do titular da Fazenda deve ocorrer antes do envio final das peças orçamentárias, mas o critério decisivo não será apenas técnico. Lula busca um nome que execute o ajuste sem ameaçar a governabilidade — ou seja, alguém que possa ser demitido se a estratégia falhar. Enquanto o anúncio não vem, a capacidade de Durigan de entregar as medidas de contenção de despesas a tempo da LDO será o termômetro real da estabilidade fiscal no curto prazo.