Economia

Texas freia data centers: bilhões em risco após virada democrata

Grande data center no Texas com placa de paralisação de obras, simbolizando moratória bilionária
Data center texano com obras paralisadas reflete incerteza bilionária após vitória democrata.

A governadora eleita Gina Hinojosa prometeu uma moratória total sobre novos data centers no Texas, mergulhando dezenas de bilhões de dólares em projetos em uma zona de incerteza jurídica e financeira. A vitória democrata na terça-feira (3) transforma em política de Estado o que até então era uma pausa administrativa temporária. O que acontece com os depósitos de garantia já pagos pelas big techs?

O que muda para Meta, Google e Microsoft

Nos últimos dois anos, o Texas virou o destino preferido das gigantes de tecnologia. Energia abundante, terra barata e regulação amistosa atraíram anúncios bilionários de Meta, Google e Microsoft. Agora, a promessa de “impedir a invasão dos data centers” coloca todos esses empreendimentos sob revisão — e ameaça travar conexões à rede que já estavam encaminhadas.

O senador eleito James Talarico, também democrata, reforçou o compromisso de campanha: nenhuma aprovação nova até que a assembleia legislativa aprove leis que deem voz às comunidades locais. A diferença em relação ao governo anterior não é apenas de grau, mas de natureza: Hinojosa quer proibição total; Abbott havia ordenado apenas uma pausa com prazo para acabar.

Por que Abbott já havia pisado no freio

O republicano Greg Abbott surpreendeu o mercado em agosto ao suspender conexões de novos data centers à rede elétrica estadual. A ERCOT, operadora do sistema, monitorava pedidos de mais de 400 gigawatts — energia suficiente para abastecer todo o sul dos Estados Unidos. Abbott também determinou auditoria abrangente sobre demanda energética, impacto ambiental e incentivos fiscais, com conclusão prevista para fim de 2026.

Medidas adicionais incluíram penalidades retroativas por uso de água e veto temporário a licenças ambientais. Mas todas tinham validade limitada. A moratória prometida por Hinojosa não tem data para terminar.

O número que assusta: 400 gigawatts na fila

Para dimensionar o risco: o volume de pedidos de conexão na ERCOT equivale a cerca de quatro vezes a capacidade instalada de geração do estado hoje. Centenas de milhões de dólares em depósitos de garantia estão presos nesse limbo. Se a moratória se confirmar, a devolução desses valores vira disputa judicial quase certa.

  • 400+ GW em solicitações de conexão monitoradas pela ERCOT
  • Dezenas de bilhões em projetos anunciados nos últimos 24 meses
  • Centenas de milhões em depósitos de garantia já pagos

Moratória total vs. pausa temporária: a diferença prática

A abordagem de Abbott era cirúrgica e com prazo: auditoria, revisão de incentivos, suspensão de licenças ambientais — tudo com data para expirar. Hinojosa propõe um bloqueio legislativo amplo, condicionando qualquer nova aprovação a leis de proteção comunitária que ainda não existem. Isso transfere o poder de veto do executivo para o legislativo, onde a negociação será mais lenta e politizada.

Enquanto isso, projetos em estágio avançado — com terreno comprado, licenciamento parcial e contratos de energia assinados — ficam em suspenso indefinido. Investidores já começam a redirecionar capital para estados vizinhos como Louisiana e Oklahoma.

O eleitor mandou recado: pesquisas mostram rejeição

A pressão política não veio do nada. Três levantamentos recentes revelam o tamanho da oposição popular:

  • 79% dos prováveis eleitores texanos apoiavam limites à construção (pesquisa Universidade de Houston, outubro)
  • 76% dos americanos se opõem a data center na própria comunidade (boca de urna NBC/SSRS)
  • 42% dos eleitores registrados consideravam o tema “muito importante” ou “o mais importante” (Reuters/Ipsos)

Comunidades rurais reclamam de consumo de água, ruído, valorização fundiária que expulsa moradores locais e pressão sobre uma rede elétrica que já falhou no inverno de 2021. A vitória de Hinojosa reflete esse desconforto difuso.

O que observar nos próximos meses

A transição de governo em janeiro será o primeiro teste: Hinojosa tentará decreto executivo imediato ou esperará a assembleia legislativa (que só se reúne em 2025)? A resposta define se a paralisação começa em semanas ou meses. Outro ponto crítico: a posição da ERCOT sobre pedidos já na fila — a operadora pode recusar novas conexões sob argumento de segurança do sistema, independentemente da vontade política.

Para quem tem capital alocado ou planejado no estado, a janela de decisão está se fechando. Acompanhar os primeiros 100 dias do novo governo e a reação do setor energético — que lucrava com contratos de longo prazo — será decisivo para saber se o Texas continua sendo a “nova Virgínia” dos data centers ou vira caso de estudo de risco regulatório.