A demanda por óleos vegetais para mistura no diesel mais que dobrou em três grandes economias desde 2020, atingindo 34,3 milhões de toneladas. O que começou como apelo ambiental virou questão de segurança nacional — e a conta chegou na gôndola do supermercado.
Geopolítica instável e o medo de desabastecimento de petróleo forçaram governos a acelerar mandatos de biodiesel. O resultado é uma disputa direta entre o tanque do caminhão e a frigideira de casa.
O mandato que dobrou a aposta na Ásia
A Indonésia lidera o movimento com a mistura B50 — 50% de óleo de palma no diesel — desde julho. O consumo local deve saltar de 7,2 milhões para 17,4 milhões de toneladas em poucos anos. Malásia e Tailândia seguem o mesmo caminho, com teores de 20%.
Essa pressão asiática drena oferta global de óleo de palma, empurrando compradores para a soja. O efeito cascata atinge diretamente o Brasil e os Estados Unidos.
Brasil e EUA: a corrida do B16 e do óleo de soja
No Brasil, a implementação do B16 (16% de biodiesel) prevista para março deve fazer o consumo de óleo de soja pular de 4,2 milhões para 8,7 milhões de toneladas. Nos EUA, reformas recentes no sistema energético elevam a projeção de 5 milhões para 8,1 milhões de toneladas.
- Indonésia (B50): 17,4 mi ton (era 7,2 mi em 2020)
- Brasil (B16 projetado): 8,7 mi ton (era 4,2 mi)
- EUA: 8,1 mi ton (era 5 mi)
Somados à Tailândia, o trio consome 122% a mais óleo vegetal que em 2020. Se incluída a União Europeia — estagnada em 6 milhões de toneladas —, o bloco chega a 40,3 milhões.
A soja que virou combustível e o preço na gôndola
O uso de óleo de soja para biodiesel explodiu 913% nos EUA e 383% no Brasil em 15 anos. A produção da oleaginosa acompanhou: o mundo saltou de 261 milhões para projetados 443 milhões de toneladas (safra 2026/27, USDA). O Brasil sozinho deve colher 182 milhões, contra 75 milhões em 2011.
Mas a oferta não corre na mesma velocidade da demanda energética. Desde 2020, a inflação média dos alimentos subiu 73% (Fipe). O óleo de soja, porém, acumula alta de 145%. Quebras de safra, estoques apertados e a nova vocação combustível explicam o descolamento.
O gargalo indiano e a aposta na macaúba
A Índia importa cerca de 16 milhões de toneladas de óleos vegetais por ano para alimentação. Com o desvio de oferta para tanques, o país asiático pressiona ainda mais os preços internacionais.
Enquanto isso, o Brasil olha para a macaúba: nativa do Cerrado, promete render de 7 a 10 vezes mais óleo por hectare que a soja. A cultura ainda está em fase de expansão comercial, mas surge como única alternativa viável para aliviar a pressão sobre a soja sem avançar sobre novas áreas.
O que observar daqui para frente
A entrada em vigor do B16 em março é o gatilho imediato para o mercado brasileiro. Se confirmado, o déficit de óleo de soja para alimentação deve se acentuar no segundo semestre. Do lado da oferta, três variáveis ditam o cenário: clima nas lavouras sul-americanas, ritmo de implantação da macaúba e a disposição da Indonésia em manter o B50 diante de eventuais crises domésticas de abastecimento de óleo de palma. Para o investidor e o gestor de custos, a regra é clara: o preço do diesel e o da cozinha agora andam de mãos dadas.
