Luiz Inácio Lula da Silva voltou ao Planalto com 64 milhões de votos — a maior votação absoluta da história. O número impressiona, mas não garante governabilidade. Com a oposição fortalecida no Legislativo, cada projeto virará negociação de bastidor.
O cenário foi debatido no Seminário Brasil 2027, da Fundação Casa de Rui Barbosa, na semana passada. Especialistas concordam: o mandato dependerá de alianças costuradas voto a voto, muito além da Esplanada dos Ministérios.
O Congresso mais à direita em duas décadas
Partido Liberal (PL), Progressistas (PP) e Republicanos somam mais da metade das cadeiras no Congresso. O avanço de parlamentares ligados a Jair Bolsonaro altera a geometria do poder. Para o cientista político Lúcio Rennó, da UnB, reformas dos últimos 15 anos deslocaram o eixo de decisão do Executivo para o Legislativo.
Não é só quantidade. Cláudio Couto, da FGV, classifica parcela dessa bancada como “anti-Estado Democrático”. A avaliação: há disposição para obstruir a agenda do governo por princípio, não por conteúdo. A resistência à reforma tributária — apoiada até por nomes do campo bolsonarista como Ciro Nogueira — seria exemplo desse padrão.
Centrão: o fiel da balança
Diante do bloqueio à direita, os partidos de centro tornam-se peça-chave. A articulação com esse bloco definirá se o Planalto aprova prioridades ou vive de vetos e medidas provisórias caducas.
O primeiro teste chega em fevereiro: eleições para presidências da Câmara e do Senado. Quem comandar as duas Casas controla a pauta legislativa, o rito de impeachment, indicações ao STF e o fluxo de emendas parlamentares. Rennó resume: “Quem manda no país hoje são dois atores: o presidente da Câmara e o do Senado”.
O que muda para quem investe ou empreende
A instabilidade parlamentar tem reflexo direto no ambiente de negócios. Três vetores merecem atenção:
- Reforma tributária: tramitação dependerá de acordos com bancadas setoriais; alíquotas e regimes especiais ainda podem mudar.
- Arcabouço fiscal: qualquer flexibilização de metas passa pelo crivo do Centrão, sensível a pressões por liberação de emendas.
- Agenda regulatória: agências, marcos legais e nomeações técnicas ficarão condicionados a negociações partidárias.
Coordenação interna: o gargalo invisível
Negociar com o Congresso não basta. Ministros indicados por partidos precisam atuar como ponte, não como feudo. A Casa Civil assume papel de mediadora entre bancadas e a agenda do Planalto. Couto prevê que projetos sairão do Executivo já incorporando demandas da base — “cada palavra do texto” será barganhada.
No terceiro mandato, mesmo com cenário adverso após o primeiro turno, o governo aprovou pautas relevantes, como o fim da escala 6×1. O padrão sugere: avanços possíveis, mas a custo de negociação granular.
Sociedade civil como contrapeso
Talita Tanscheit, da PUC-Rio, aponta que o segundo turno reativou mobilização social com foco eleitoral — fenômeno raro na América Latina recente. Diferente de Chile ou Colômbia, onde protestos miravam derrubar governos, aqui o objetivo foi colocar voto na urna.
A pesquisadora defende “inovações democráticas”: conselhos, conferências e gestão compartilhada como canais para sustentar a agenda fora do Parlamento. O PT precisaria manter “vínculos permanentes” com movimentos progressistas.
Pautas de risco: maioridade penal e reforma do Judiciário
Com a legitimidade do STF questionada — ampliada pelo envolvimento de ministros com o Banco Master —, temas caros à extrema-direita ganham tração. Dois merecem radar:
- Maioridade penal: redução para 16 anos surge como “proposta mediada” frente ao pleito radical de 14 anos para hediondos.
- Reforma do Judiciário: propostas incluem mandatos para ministros e retirada de competências penais do STF.
Rennó conecta a vitória expressiva do PL no Senado à insatisfação com a Corte. “Com legitimidade abalada, não só o impeachment volta à tona, mas reformas profundas”, conclui.
O que observar daqui para frente
Três marcos ditam o ritmo do próximo ano: a eleição das Mesas Diretoras em fevereiro, a instalação das comissões temáticas em março e a tramitação do Orçamento 2027 no segundo semestre. Empresários e investidores devem monitorar a composição das relatorias-chave — Relatoria de Orçamento, CCJ, CAE — e a velocidade de liberação de emendas impositivas. O grau de coesão do Centrão nas primeiras votações sinalizará se o governo terá base operacional ou viverá de maiorias eventuais.
