Economia

Copom para os cortes: Selic fica em 13,75% e mercado já precifica o pior

Sede do Banco Central do Brasil em Brasília com gráfico de juros Selic estagnado em 13,75%
Banco Central mantém Selic em 13,75% e interrompe ciclo de cortes iniciado em março

O Comitê de Política Monetária (Copom) deve anunciar nesta quarta-feira (4) a interrupção do ciclo de afrouxamento iniciado em março, mantendo a Selic em 13,75% ao ano. A decisão encerra uma sequência de sete reduções consecutivas e sinaliza que o Banco Central considera o trabalho de “calibragem” concluído, ao menos por ora.

A unanimidade não é total: levantamento da Bloomberg com 29 economistas mostra 24 apostas na manutenção e cinco ainda projetando um último corte de 0,25 ponto percentual. A mediana do Focus, pesquisa semanal do próprio BC, converge para o mesmo número — 13,75%.

O que mudou em duas semanas

Até a penúltima semana de outubro, o mercado precificava Selic a 13,25% no fim do ano, com cortes em novembro e dezembro. A reeleição do presidente Lula (PT) alterou radicalmente o cenário. A depreciação do real, a incerteza sobre o arcabouço fiscal, o estresse nos juros futuros e a alta do petróleo formaram uma tempestade perfeita para as expectativas de inflação.

Na terça-feira (3), a Bolsa fechou em queda de 1,42%, aos 165.528 pontos — menor nível desde janeiro e sexto pregão seguido no vermelho. O dólar subiu 0,70%, a R$ 5,486, maior valor desde dezembro de 2022. Os contratos de DI para 2031 e 2035 avançaram mais de 9 pontos-base cada.

Impacto direto no seu bolso e nos negócios

  • Crédito caro por mais tempo: linhas para capital de giro, veículos e imóveis não devem ficar mais baratas no curto prazo.
  • Dívida pública pressionada: juros altos elevam o custo de rolagem da dívida e reduzem espaço fiscal para investimentos.
  • Planejamento estratégico: empresas que dependem de financiamento de longo prazo precisam rever projeções de fluxo de caixa.

O que o BC disse — e o que não disse

Na reunião de 16 de setembro, o colegiado evitou antecipar passos futuros. O comunicado repetiu que a extensão total do ciclo de queda seria definida “à luz de novas informações”, com foco na meta contínua de 3% de inflação (intervalo de 1,5% a 4,5%).

No cenário de referência do Copom, a inflação projetada é de 5,2% para 2024, 3,9% para 2027 e 3,2% para o primeiro trimestre de 2028. O IPCA acumulado em 12 meses até setembro estava em 4,58%; o Focus prevê 5,20% no encerramento do ano — acima do teto da meta.

Um ciclo atípico na história recente

Este foi um dos processos de redução mais suaves desde a criação do regime de metas, em 1999. O termo “calibragem”, adotado pelo próprio comitê, reflete a cautela: cortes graduais de 0,50 ponto, depois de 0,25 ponto, sempre condicionados a dados favoráveis. A pausa agora indica que o BC considera o balanço de riscos desfavorável para prosseguir.

O que observar daqui para frente

A próxima reunião está marcada para 8 e 9 de dezembro. Até lá, três variáveis ditarão as apostas: a tramitação do pacote fiscal no Congresso, a trajetória do dólar e a divulgação do IPCA de outubro (prevista para 10 de novembro). Qualquer sinal de ancoragem das expectativas de inflação para 2025 pode reabrir espaço para cortes no primeiro trimestre de 2024. Sem isso, a Selic deve permanecer onde está por um período prolongado — o que, para o empresariado, significa manter o cenário-base de juros reais elevados nos planos de investimento e precificação.