A Gerdau confirmou o fim da produção de aço em sua unidade de Divinópolis (MG) na terça-feira (3), disparando um efeito dominó que ameaça a sobrevivência de mais de duas mil empresas instaladas nos bairros Interlagos e Porto Velho. A decisão corta 280 postos de trabalho diretos e deixa outros 120 funcionários diante da escolha entre a transferência para outros estados ou a demissão. Mas o número que assusta mesmo não está na folha de pagamento da siderúrgica.
O entorno que ninguém conta no balanço
Levantamento da Prefeitura mostra que 93% dos negócios no raio de influência da fábrica são microempresas: lanchonetes, transportadoras, oficinas, prestadores de serviços de manutenção e comércio varejista. Juntos, eles formam uma teia invisível que sustentava a operação da Gerdau — e que agora descobre, da noite para o dia, que seu principal cliente fechou as portas.
O impacto direto atinge cerca de mil pessoas entre empregados próprios e terceirizados, o equivalente a 7,4% dos postos industriais formais do município. Para completar, a unidade respondia por até 15% da arrecadação municipal de ICMS. A prefeitura promete lançar ainda esta semana um programa de mitigação, mas comerciantes ouvidos pela reportagem dizem que o relógio já está correndo.
Restaurante de 23 anos coloca equipe em aviso prévio
Rafael Mechler, dono da Cantina da Rosana no bairro Interlagos, servia entre 200 e 300 refeições por dia para trabalhadores de empreiteiras da Gerdau. Noventa por cento do faturamento vinha dali. No mesmo dia do anúncio, ele colocou seus quatro funcionários em aviso prévio.
Três meses atrás, a empresária Preta Souza mudou seu restaurante do bairro Niterói para o entorno da fábrica apostando no fluxo constante de caminhoneiros e operários. Hoje, ela contabiliza o prejuízo de uma aposta que o mercado não avisou que era arriscada.
- Queda imediata: movimento caiu à metade nas primeiras 48 horas após o anúncio.
- Compromissos assumidos: aluguel, folha, fornecedores — todos cobram no vencimento.
- Saída incerta: não há outro polo industrial na região capaz de absorver essa demanda.
Transporte já sentia o baque desde julho
O taxista Edison Júnior, há 25 anos na praça e há cinco dedicado ao transporte de funcionários de prestadoras da Gerdau, resume: “De julho para cá a demanda já vinha caindo. Exames admissionais, demissionais, periódicos, deslocamento para alojamento e rodoviária — tudo minguou”. A formalização do fim da produção apenas selou uma tendência que o mercado antecipou.
Por que a Gerdau saiu? O cenário que ninguém controla localmente
A empresa cita três pilares para a decisão: dificuldade de acesso a minério de ferro a preços competitivos, avanço das importações de aço no Brasil e condições adversas no mercado internacional. O pano de fundo, segundo a FIEMG Regional Centro-Oeste, é a crise prolongada do setor imobiliário chinês. Com a construção civil desacelerada lá, produtores chineses despejam excedentes no mercado global, derrubando preços e apertando a margem de quem produz no Brasil — já onerado pelo chamado “Custo Brasil”.
Não é uma decisão de gestão local. É um xadrez geoeconômico onde Divinópolis entrou como peça descartável.
O que observar nas próximas semanas
Três frentes definem se o impacto será um solavanco ou um colapso prolongado:
- Plano municipal: a velocidade e a abrangência do programa de apoio a trabalhadores e microempresas — crédito emergencial, qualificação, intermediação de mão de obra.
- Destino da área: a Gerdau manterá atividades de laminação e distribuição no local. Se houver expansão dessa operação, parte da cadeia de serviços pode se reconectar.
- Política comercial federal: medidas antidumping e de defesa comercial contra importações predatórias de aço chines são o único vetor que pode alterar a equação de competitividade no médio prazo.
Enquanto isso, no Interlagos e no Porto Velho, donos de bar, mecânicos, motoristas de van e costureiras de uniforme fazem as contas de um dezembro que não tem cara de festa. O aço parou de sair da usina, mas a conta chegou para todo mundo.
