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Lula reeleito com 64 mi de votos, mas Congresso vira fortaleza da oposição: o que vem agora

Lula discursa após vitória eleitoral com Congresso Nacional ao fundo simbolizando desafio político
Lula eleito com recorde de votos enfrenta Congresso majoritariamente oposicionista

Luiz Inácio Lula da Silva conquistou um novo mandato com 64 milhões de votos — o maior total absoluto da história. O número impressiona, mas não garante governabilidade. A oposição saiu das urnas com mais da metade das cadeiras no Congresso.

Essa assimetria entre voto popular e força parlamentar define o xadrez político para os próximos quatro anos. O presidente terá de negociar cada voto, cada vírgula de projeto, sob risco de ver a agenda travar.

O Congresso mais à direita em 15 anos

Levantamento do cientista político Lúcio Rennó (UnB) mostra que PL, Progressistas e Republicanos, somados, controlarão mais de 50% das cadeiras na Câmara e no Senado. É a maior bancada de direita desde a redemocratização.

O centrão, grupo que historicamente negocia apoio em troca de cargos e emendas, torna-se o fiel da balança. Sem ele, não há maioria para nada — nem para aprovar medidas econômicas, nem para barrar pautas de costume.

Fevereiro decide o jogo: presidências das Casas

A eleição para comandar Câmara e Senado, em fevereiro, será o primeiro teste real de força. Quem ocupar essas cadeiras controla:

  • A pauta de votações prioritárias
  • O rito de pedidos de impeachment
  • Indicações ao STF e a tribunais superiores
  • A distribuição de emendas parlamentares

Rennó resume: “Quem manda no país hoje são dois atores: o presidente da Câmara e o do Senado”. O Planalto sabe disso e já articula nos bastidores.

Risco de sabotagem legislativa, não só oposição

Para Cláudio Couto (FGV), o cenário vai além do embate ideológico. “Estamos falando de uma direita anti-Estado Democrático”, afirma. “Não reconhece a legitimidade do adversário e opera em lógica de sabotagem”.

Exemplo citado: resistência à reforma tributária do governo, mesmo com apoio de nomes como Ciro Nogueira (PP). A oposição teria votado contra apenas por ser iniciativa do Executivo.

Executivo precisa consertar a própria coordenação

Negociar com o centrão não basta. Especialistas apontam falha na articulação interna: ministros e secretários indicados por partidos da base nem sempre votam alinhados ao Planalto.

A tendência é que todo projeto saia da Casa Civil já “costurado” — palavra por palavra — com as bancadas. O custo: tramitação mais lenta, textos mais inchados, menos ousadia.

A carta fora do baralho: mobilização social

Talita Tanscheit (PUC-Rio) vê na mobilização do segundo turno um ativo inédito na América Latina recente: protestos com objetivo de colocar voto na urna, não derrubar governos. O PT teria de transformar essa energia em “vínculos permanentes” com movimentos progressistas.

Conselhos, conferências e gestão compartilhada seriam canais para pressionar o Congresso de fora para dentro — o que Couto chama de “inovações democráticas”.

Pautas da extrema-direita entram na mesa de negociação

Com a vitória expressiva do PL no Senado, temas caros à base bolsonarista ganham tração:

  • Redução da maioridade penal: proposta de 16 anos (extrema-direita queria 14 para crimes hediondos)
  • Reforma do Judiciário: mandatos para ministros do STF, retirada de competências penais da Corte
  • Impeachment de ministros do STF: volta à pauta com a legitimidade da Corte abalada, segundo Rennó

O cientista político da UnB avalia: “Com a legitimidade do STF abalada, não só o impeachment volta à tona, mas a discussão de reformas profundas”.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se o governo avança ou sobrevive:

  • Resultado das eleições nas mesas diretoras (fevereiro)
  • Capacidade da Casa Civil de fechar textos antes de enviá-los ao Congresso
  • Se a mobilização social consegue virar pressão legislativa sustentável, não episódica

O mandato começou nas urnas. A governabilidade, porém, será decidida voto a voto, emenda a emenda, nos corredores do Congresso. Quem acompanha o risco-país deve monitorar a composição das comissões temáticas — ali nascem os relatores que podem acelerar ou enterrar a agenda econômica.