A Unilever confirmou nesta terça-feira (3) um plano adicional de redução de custos de 1 bilhão de euros (cerca de R$ 6,2 bilhões) a ser executado até o fim de 2029. A meta surge como consequência direta da cisão do negócio de alimentos, fechada em um acordo de US$ 66 bilhões com a McCormick. A promessa é de uma empresa “mais ágil e focada”, mas os números revelam um desafio de execução que vai muito além da contabilidade.
O anúncio acontece às vésperas de um encontro com investidores em Londres, onde o CEO Fernando Fernandez detalhará a nova arquitetura operacional. A pressão por resultados imediatos explica a urgência: Fernandez assumiu o comando no ano passado após a saída abrupta de Hein Schumacher, insatisfazendo o conselho e o investidor ativista Nelson Peltz.
O que muda na prática com o novo modelo
A companhia adotará o princípio de “estratégia global, execução local”. Na prática, significa uma estrutura central enxuta, com poder de decisão transferido para equipes regionais responsáveis pelo próprio desempenho. A ideia é eliminar camadas burocráticas que, segundo a gestão atual, travavam a velocidade de resposta ao consumidor.
Os cortes virão de três frentes: sinergias remanescentes da separação dos alimentos, simplificação de processos internos e investimento pesado em tecnologia. A meta anterior, de 800 milhões de euros em economias anuais até 2026, já foi atingida, segundo a empresa.
A aposta concentrada em beleza e bem-estar
Com a saída de marcas como Hellmann’s e Knorr do portfólio, o foco se desloca integralmente para três pilares: beleza e bem-estar, cuidados pessoais e cuidados com o lar. A Unilever priorizará marcas com crescimento acelerado nessas categorias, mirando especialmente dois mercados:
- Índia: motor demográfico e de consumo de massa.
- Estados Unidos: maior mercado de valor agregado e inovação.
Essa concentração geográfica e setorial é a aposta para entregar o crescimento de vendas subjacentes entre 4% e 6% ao ano projetado para 2027.
Números que o investidor precisa saber
O mercado recebeu a notícia com ceticismo contido. Analistas da RBC Capital Markets classificaram as metas de volume (crescimento mínimo de 2%) e vendas como “desafiadoras, mas amplamente esperadas”. A expansão moderada da margem operacional subjacente é o termômetro real de se a simplificação gera lucro real ou apenas redução de receita.
Pontos de atenção para 2027:
- Crescimento das vendas subjacentes: 4% a 6% ao ano.
- Expansão do volume subjacente: mínimo de 2%.
- Melhora moderada da margem operacional subjacente.
O desafio de Fernandez e a sombra de Peltz
Fernandez herdou a missão de provar que a cisão — defendida há anos por Peltz, que tem assento no conselho desde 2022 — gera valor para o acionista. A recepção morna do anúncio da fusão com a McCormick, em março, mostrou que o mercado não concede crédito automático. O novo corte de 1 bilhão de euros é, essencialmente, a fatura prometida para justificar a reestruturação.
A transição para “execução local” carrega riscos operacionais: padronização de qualidade, gestão de marca global versus autonomia regional e integração de sistemas tecnológicos em dezenas de países simultaneamente.
O que observar daqui para frente
O encontro desta quarta-feira (4) será o teste de fogo para a credibilidade do novo plano. Investidores devem pressionar por marcos trimestrais claros de entrega das sinergias e sinais concretos de aceleração de volume nas categorias prioritárias. Se a “estrutura enxuta” não converter agilidade em ganho de market share na Índia e nos EUA já nos primeiros relatórios de 2025, a narrativa de recuperação perde força rapidamente. Acompanhe a evolução da margem operacional: ela será o termômetro definitivo se o corte de custos virou lucro sustentável ou apenas maquiagem contábil.
