A xAI, empresa de inteligência artificial de Elon Musk, já opera oito turbinas de avião convertidas no Mississippi para manter seu data center funcionando. A autorização estadual permite que esses equipamentos emitam o dobro de monóxido de carbono e 25% a mais de compostos orgânicos voláteis que turbinas convencionais. A corrida pela energia barata e rápida está ressuscitando cemitérios de aviões no deserto — e o custo ambiental fica em segundo plano.
A eletricidade travou a IA
Em fevereiro, Musk admitiu publicamente que a eletricidade, não a falta de chips, é o maior gargalo hoje. “Os chips vão se acumular sem que possam ser ligados”, disse ele. A fila para conexão na rede elétrica leva anos; uma turbina a gás convencional também tem prazo longo de entrega.
Foi aí que a indústria olhou para o deserto de Sonora, no Arizona. Lá, a Base Aérea de Davis-Monthan guarda 4.000 jatos militares aposentados. Segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA, só os motores parados ali renderiam 40 mil megawatts — mais que a capacidade total de geração do estado.
Cemitérios de aviões viram minas de ouro
No Pinal Airpark, uma das maiores instalações de recuperação do mundo, quase 300 aeronaves ocupam 8.000 hectares. “Os motores são os primeiros a ser retirados”, conta Lynell Merriman, gerente do local. Em muitos casos, o par de turbinas vale mais que a fuselagem inteira.
Empresas como a ProEnergy e a FTAI Aviation compram esses ativos, removem a ventoinha frontal e adaptam a câmara de combustão para queimar gás natural. O eixo central, antes ligado à hélice, passa a girar um gerador elétrico. Cada unidade entrega 50 megawatts — energia para 15 mil residências — e fica pronta em meses, não anos.
- Velocidade: data center operando em 24 meses contra 4 a 6 anos de espera pela rede.
- Oferta: milhares de motores CFM56 (Boeing 737/Airbus A320) e GE CF6 (747) disponíveis no mercado secundário.
- Custo: capital inicial menor que turbinas industriais novas, apesar do consumo de combustível mais alto.
O preço ambiental da velocidade
A conversão resolve o prazo, mas cria outro problema. Motores de avião são projetados para empuxo, não eficiência térmica contínua. Resultado: queimam mais gás por megawatt gerado e liberam mais poluentes locais.
As licenças da xAI no Mississippi escancaram a diferença: limite de monóxido de carbono duas vezes superior ao das turbinas industriais vizinhas e folga de 25% para compostos orgânicos voláteis. Para Patrick Anderson, do Southern Environmental Law Center, “a geração de eletricidade para algo tão futurista quanto a IA deveria ficar mais limpa, não mais suja”.
Bilionários e política: quem lucra com a gambiarra
A ProEnergy, pioneira no modelo, viu a demanda de data centers ultrapassar a de concessionárias tradicionais. A FTAI Aviation fechou contrato de US$ 1,5 bilhão para fornecer turbinas convertidas e monta linha de produção em Montreal. Até a Boom Supersonic, startup de aviões supersônicos, pivoteou para vender motores a data centers.
O governo Trump atuou como facilitador. Em agosto, o presidente determinou que data centers gerem a própria energia para não onerar a rede. Meses depois, o Departamento de Justiça interveio em processo judicial contra a xAI, argumentando que a ação de ambientalistas ameaçava a “segurança nacional” e o “domínio global da IA”.
Funciona, mas até quando?
Especialistas questionam a escalabilidade. Scott Marchand, do Museu do Ar e do Espaço de Pima, alerta: “Será preciso uma quantidade monstruosa de motores, com manutenção cara, combustível caro e geração massiva de calor”. A logística de abastecer e reparar dezenas de unidades em campo aberto difere radicalmente de uma usina centralizada.
O Google, por exemplo, optou por esperar a conexão à rede, evitando o passivo ambiental. A aposta das big techs restantes revela a prioridade do momento: velocidade a qualquer custo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a “gambiarra dos jatos” vira padrão ou permanece solução de emergência: a evolução do preço do gás natural, a pressão regulatória por limites de emissão mais rígidos em nível federal e a chegada de turbinas industriais de ciclo combinado com prazos de entrega competitivos. Se a fila da rede encurtar ou o custo do carbono subir, os cemitérios do Arizona voltam a ser apenas cemitérios.
