A demanda global por óleos vegetais para mistura ao diesel mais que dobrou em quatro anos, puxada por uma corrida por segurança energética que poucos previram. O reflexo direto está no bolso do consumidor e nas planilhas de custo de indústrias alimentícias.
Somando Tailândia, Brasil e Estados Unidos, o consumo de óleo vegetal como combustível deve fechar 2024 em 34,3 milhões de toneladas — um salto de 122% frente a 2020. Se a União Europeia entrar na conta, o total salta para 40,3 milhões.
O gatilho geopolítico que mudou tudo
Durante duas décadas, o biodiesel avançou sob a bandeira da energia limpa. A guerra no Irã e o estrangulamento do fornecimento de petróleo viraram a chave: governos passaram a elevar a mistura obrigatória como blindagem energética.
A Indonésia lidera o movimento. Desde julho, o país adota B50 — 50% de óleo de palma no diesel. O consumo deve atingir 17,4 milhões de toneladas neste ano, contra 7,2 milhões em 2020. Malásia e Tailândia seguem o mesmo caminho, com misturas de até 20%.
Brasil e EUA: a rota da soja
No Brasil, o óleo de soja destinado ao biodiesel saltará de 4,2 para 8,7 milhões de toneladas se o B16 (16% de mistura) entrar em vigor em março. Nos Estados Unidos, o volume sobe de 5 para 8,1 milhões de toneladas com as novas regras do sistema energético.
Os números de 15 anos impressionam:
- EUA: alta de 913% no uso de óleo de soja para biodiesel
- Brasil: crescimento de 383% no mesmo período
O gargalo que ninguém comenta
Enquanto produtores comemoram a demanda aquecida, a Índia importa cerca de 16 milhões de toneladas de óleos vegetais por ano apenas para alimentação. A competição pelo mesmo insumo pressiona a oferta global e eleva preços.
A produção de soja acompanha o ritmo. A safra 2010/11 colocou 261 milhões de toneladas no mercado; a projeção do USDA para 2026/27 é de 443 milhões. O Brasil, que produziu 75 milhões em 2011, caminha para 182 milhões na mesma safra futura, segundo a Conab.
O mapa dos óleos no mundo
A produção global de óleos vegetais já atinge 243 milhões de toneladas. A liderança divide-se entre:
- Palma: 79 milhões de toneladas
- Soja: 75 milhões
- Canola: 38 milhões
- Girassol: 24 milhões
Mas a macaúba surge no radar: a palmeira nativa pode render de 7 a 10 vezes mais óleo por hectare que a soja, segundo estudos da Acelen.
O peso na inflação de alimentos
Desde 2020, a inflação média dos alimentos acumula 73%. O óleo de soja, porém, dispara 145% — dados da Fipe. Quebras de safra, estoques apertados e a aceleração dos preços internacionais completam a equação, mas o desvio de volume para combustíveis é variável estrutural.
O que observar daqui para frente
A implementação do B16 no Brasil em março será o termômetro imediato. Nos EUA, as metas do Renewable Fuel Standard ditam o ritmo. Na Ásia, a Indonésia já sinaliza estudar B60. Cada ponto percentual a mais na mistura retira centenas de milhares de toneladas do mercado de alimentos. Para quem gere custos industriais ou carteiras de investimento, o monitoramento das políticas de mistura obrigatória deixou de ser opcional — virou variável de sobrevivência.
