O Brasil tem 50 milhões de postes de energia, e cerca de 10 milhões deles estão em estado crítico — fios soltos, emaranhados, ligações clandestinas e risco real de queda. A promessa de organizar essa bagunça existe há mais de três anos, mas um impasse regulatório mantém tudo parado.
Enquanto a burocracia não decide quem manda, o perigo continua nas ruas. O professor René Batista Almeida tropeçou em um cabo caído no chão do seu bairro e, a partir dali, passou a notar o problema em toda parte: fios enrolados em árvores, pendurados em cestos de lixo, cruzando calçadas sem identificação. “Não sei se é energia, internet ou TV. O medo é real”, diz ele.
O emaranhado que ninguém consegue desatar
Nos postes, convivem cabos de internet, telefonia fixa, TV a cabo, equipamentos de conexão e fios antigos que ninguém removeu. A confusão é tamanha que, muitas vezes, nem os próprios técnicos sabem identificar a origem de cada fio. Resultado: quando há uma falha, a solução mais rápida é puxar um cabo novo por cima de tudo — e o nó aperta ainda mais.
As empresas de telecomunicações são donas dos cabos. As distribuidoras de energia são donas dos postes, cobram pelo aluguel do espaço e, pela regra, deveriam fiscalizar e organizar a ocupação. Na prática, isso não acontece.
O plano do governo e a briga pelo controle
O governo federal desenhou uma saída: criar a figura do “posteiro”, uma empresa terceirizada e neutra para administrar a infraestrutura compartilhada. A ideia é tirar a gestão das mãos de quem tem interesse comercial direto no uso dos postes.
Mas dois órgãos reguladores discordam sobre quem pode ser esse “posteiro”:
- Anatel: defende uma empresa totalmente independente — nem ligada às teles, nem às elétricas. Para o superintendente José Borges, permitir que um dono de infraestrutura atue também no varejo de telecom cria risco concorrencial grave.
- Aneel: entende que as distribuidoras de energia (ou suas subsidiárias) podem concorrer à administração. O superintendente André Ruelli argumenta que quem não tiver capacidade técnica será eliminado no processo.
Por que a demora custa caro
O impasse não é apenas burocrático. Cada mês sem definição significa mais cabos jogados sobre a rede existente, mais risco de acidentes, incêndios e apagões localizados. A estimativa oficial, para quando o plano finalmente sair do papel, é modesta: regularizar apenas 2% a 3% dos postes problemáticos por ano.
Na conta de 10 milhões de unidades em estado crítico, isso significa décadas de espera para uma solução completa — se nada piorar no meio do caminho.
O que observar nos próximos meses
A definição do modelo de governança do “posteiro” é o gatilho que destravará (ou não) os investimentos em ordem e segurança. Empresas do setor, investidores e gestores públicos devem acompanhar a negociação entre Anatel e Aneel: o desenho final ditará quem paga a conta, quem fiscaliza e qual o ritmo real de regularização. Enquanto não houver consenso, o emaranhado segue crescendo — e o próximo tropeço pode ser mais grave.
