Cultura

Globo vira a chave: o cálculo por trás do rompimento com Flávio e a corte a Lula

Logotipo da Globo sobreposto a imagens de Lula e Bolsonaro, simbolizando mudança de alinhamento político da emissora
Globo reposiciona-se estrategicamente entre o governo Lula e a oposição bolsonarista

A Globo decidiu soltar a mão de Flávio Bolsonaro e, no mesmo movimento, escalou André Janones como protagonista de 14 minutos no “Fantástico”. A emissora sinaliza ao mercado e ao Planalto que a neutralidade editorial tem preço — e que a fatura agora será cobrada em acesso privilegiado ao centro do poder.

O que parece guinada ideológica é, na prática, uma operação de risco calculado. A família Marinho aposta que a relação com o governo Lula vale mais do que o capital político remanescente da base bolsonarista. Mas o tabuleiro tem variáveis que ainda não fecharam.

O gatilho: Fantástico e JN alinhados no mesmo discurso

Na quarta-feira (28), César Tralli abriu o “Jornal Nacional” classificando a carta de Flávio como de “tom golpista” e destacou “acusação sem provas de fraude no segundo turno”. No domingo, o “Fantástico” foi além: rotulou o senador como “candidato derrotado” e dedicou 13 minutos ao tema. A linguagem padronizada entre os dois principais telejornais não é coincidência — é diretriz de cima.

Até comentaristas historicamente identificados com a direita, como Merval Pereira na GloboNews, condenaram a ida de Flávio aos EUA e a estratégia de descredibilizar o processo eleitoral. O cerco interno fechou.

O contraponto: Janones como “popstar” da virada

No mesmo “Fantástico” que fustigou Flávio, André Janones (Rede) ganhou 14 minutos de perfil elogioso. A reportagem enquadrou o deputado como articulador do “Exército do Lula” no WhatsApp e peça-chave na virada histórica. O tratamento de celebridade política não passou despercebido nos bastidores de Brasília.

A mensagem subliminar: a emissora premia quem entrega resultado eleitoral e pune quem contesta o resultado nas urnas.

O almoço que azedou a relação com o Planalto

O ruído começou em 16 de outubro, quando João Roberto Marinho ofereceu almoço a Flávio na sede da Globo, horas antes da sabatina no “Entrevista com o Candidato”. Lula não recebeu convite equivalente. A assimetria gerou críticas de quebra de isenção e forçou a emissora a um movimento corretivo público.

Flávio ainda revelou nas redes que o “Fantástico” propôs entrevista, mas recusou a exigência de exibição na íntegra, sem cortes. A recusa funcionou como demonstração de que a independência editorial — ou ao menos a percepção dela — tornou-se ativo de negociação.

O que a Globo quer de Lula (e não é verba publicitária)

O Grupo Globo não depende de verbas federais de propaganda. O ativo disputado é outro: canal de interlocução direta com o núcleo duro do governo. A emissora deve acionar jornalistas com trânsito no petismo — Natuza Nery e Guilherme Balza são os nomes citados — para “reciclar” a relação.

Empresarialmente, a conta é simples: decisões recentes de Lula já impactam o balanço da companhia.

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Cada medida futura — regulação de streaming, tributação de big techs, regras de concessão — passa pela caneta presidencial. Ter porta aberta no Planalto virou questão de sobrevivência de longo prazo.

O risco de alienar a base que ainda assiste

A Globo alcançou 70 milhões de brasileiros na cobertura eleitoral, provando que boicotes organizados não derrubam audiência. Mas o eleitorado de direita não evaporou — apenas migrou para canais alternativos. Perder relevância nesse segmento reduz poder de negociação com anunciantes que miram esse público.

O cálculo da emissora: o governo Lula tem quatro anos de mandato. A base bolsonarista, fragmentada e sem liderança unificada, pode não se recompor a tempo de ameaçar a hegemonia da Globo no horário nobre.

O que observar daqui para frente

Três sinais dirão se a estratégia funcionou: (1) frequência de pautas positivas sobre programas federais nos telejornais; (2) acesso de repórteres da casa a ministros-chave (Fazenda, Casa Civil, Comunicação); (3) eventuais flexibilizações regulatórias que beneficiem o grupo — especialmente no streaming e na transição do modelo de concessões.

Se a “reciclagem” der certo, a Globo terá provado que, no Brasil, independência editorial é moeda de câmbio flutuante. Se falhar, terá queimado pontes dos dois lados ao mesmo tempo.