O economista José Sergio Gabrielli, articulador do programa de governo de Lula, quebrou o silêncio: o buraco fiscal brasileiro é “menos dramático” do que prega o mercado, mas o remédio proposto por André Lara Resende — tabelar a Selic — ganhou peso nos bastidores do Planalto. A declaração caiu como uma bomba na Faria Lima justamente às vésperas de uma reunião do Copom.
Enquanto o ministro Dario Durigan correu para negar qualquer tabelamento de juros no domingo, o artigo de Gabrielli circulava entre ministros e assessores presidenciais. A contradição expõe uma guerra de narrativas que pode definir os rumos da economia em 2024.
O diagnóstico que contraria o consenso
Gabrielli não nega o déficit. Ele contesta a urgência do ajuste. Segundo o ex-presidente da Petrobras, a dívida bruta em 82,9% do PIB — maior patamar desde 2021 — é inflada artificialmente por juros reais estratosféricos. A conta não fecha porque o custo da dívida cresce mais que a riqueza produzida.
Essa leitura ecoa o termo “austericídio”, ressuscitado no artigo: a ideia de que cortes agressivos de gastos, com Selic a 13,75%, asfixiam a receita e pioram a razão dívida/PIB em vez de melhorá-la.
Dez medidas para arrecadar sem aumentar impostos
O economista mapeou dez frentes baseadas nas fundações Perseu Abramo, João Mangabeira e Rede Brasil Sustentável. O foco: receitas paradas ou mal geridas.
- Revisão de contratos de energia, telecom, imóveis e compras padronizadas perto do vencimento
- Pente-fino em incentivos tributários — só com prazo, meta e contrapartida claros
- Escrutínio sobre emendas parlamentares: vinculação a programas estruturantes
- Nova agenda de financiamento da Previdência para 2027, incluindo trabalho por plataforma
Nenhuma das propostas menciona nova idade mínima, redução de indexação ou barreiras de elegibilidade. O recado: ajuste pelo lado da receita e da gestão, não do corte de direitos.
Lara Resende no radar: o plano que gelou a Faria Lima
Publicado em setembro, o artigo de Lara Resende propõe um teto para a Selic e um conselho ampliado — acima do CMN — para coordenar monetária e fiscal. Gabrielli classifica a ideia como de “atenção especial”.
Durigan negou tudo no domingo. Mas a Folha apurou que auxiliares de Lula querem apresentar a proposta ao presidente. A tensão é real: o mercado aposta que a simples discussão do tabelamento eleva prêmios de risco e derruba o real.
A reação política e o recado ao mercado
Gleisi Hoffmann chamou o texto de Lara Resende de “fundamental para enfrentar a ofensiva terrorista sobre a política fiscal”. Edinho Silva, presidente do PT, cortou: só Durigan fala de economia; “especulações não colaboram”.
Gabrielli foi além. Atribuiu a reação negativa do mercado à aposta errada na vitória de Flávio Bolsonaro. “A Faria Lima quer pautar o programa do presidente eleito, mesmo tendo apostado no adversário.”
O que observar nas próximas semanas
Três frentes definem o cenário: a ata do Copom e sinais sobre a trajetória da Selic; a tramitação do arcabouço fiscal no Congresso; e a disposição de Lula em ouvir — ou vetar — a proposta de coordenação monetário-fiscal. Se Gabrielli venceu a batalha da narrativa, a guerra dos juros reais continua aberta. Quem viver, verá a conta chegar.
