Economia

Apple alerta: alta “sem precedentes” de chips vai corroer margens no Natal

Tim Cook em apresentação da Apple com gráfico de margens em queda e chips de memória ao fundo
Apple prevê margens comprimidas no Natal devido a alta recorde nos preços de chips de memória.

A Apple projeta vendas recordes para o fim de ano, mas avisou que a disparada no preço dos chips de memória e o custo da nova Siri com inteligência artificial vão comprimir as margens ao menor nível em trimestres. As ações caíram 3% no after-market assim que a projeção foi conhecida.

O guidance de receita para o quarto trimestre fiscal — entre 7% e 10% acima de 2025 — supera o consenso de Wall Street (6%). Ainda assim, a margem bruta esperada de 45% a 46% fica aquém dos 47% que analistas projetavam. O mercado puniu a diferença.

O choque nos custos que ninguém esperava

John Ternus, CEO desde setembro, foi direto: “O que estamos vendo nos preços da memória neste momento é sem precedentes”. A corrida por data centers sugou a oferta global de DRAM e NAND, justamente quando a Apple precisa abastecer iPhones, Macs e a infraestrutura de IA.

A empresa já repassou parte do aumento em junho, elevando preços de toda a linha. Mesmo assim, a margem do terceiro trimestre fechou em 47,9% — no teto da faixa anterior — mas a visibilidade para os próximos meses piorou.

Vendas fortes, ações em queda

O trimestre encerrado em setembro trouxe US$ 114,5 bilhões de receita, alta de 17,5% ano a ano. Lucro líquido de US$ 30,7 bilhões. Serviços (App Store, iCloud, Apple Pay) geraram US$ 31,6 bilhões. Macs surpreenderam com US$ 10,8 bilhões, cerca de US$ 1 bilhão acima do esperado.

Nada disso segurou o papel. Investidores olham para a margem, não só para o topo da demonstração de resultado.

China, iPhone dobrável e a equação de preços

A China decepcionou: US$ 17,5 bilhões (alta de 20%), porém abaixo dos US$ 18,9 bilhões estimados. Kevan Parekh, CFO, credita a restrições de supply chain que limitaram entregas.

O iPhone Duo dobrável, lançado em setembro, enfrenta atrasos de entrega e relatos de rachaduras na tela — a Apple fala em “número limitado”. O modelo básico mais barato foi adiado para 2027, o que embaralha comparações anuais e projeções de Natal.

Parekh admite ser “difícil” medir quanto do crescimento do iPhone no trimestre veio de consumidores antecipando compras antes dos reajustes.

Por que a Apple virou refúgio (mesmo assim)

Enquanto Google, Amazon e Intel decepcionaram e arrastaram o setor, a Apple subiu no mês anterior ao balanço. A avaliação beira US$ 5 trilhões, disputando com a Nvidia o posto de empresa mais valiosa do mundo.

A diferença: a Apple não entrou na corrida desenfreada por data centers próprios. Gasta menos em capex de IA, o que atrai investidores cautelosos. Mas não escapa da escassez de semicondutores — poucos fornecedores atendem a demanda global.

  • Receita 3º tri: US$ 114,5 bi (+17,5% a/a)
  • Margem bruta 3º tri: 47,9%
  • Guidance margem 4º tri: 45% a 46%
  • China: US$ 17,5 bi (+20%, abaixo do consenso)
  • Serviços: US$ 31,6 bi

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o próximo trimestre: a trajetória dos preços de memória (se a construção de data centers arrefece, a pressão alivia), a adoção da nova Siri e seu custo por query, e a resposta do consumidor aos iPhones US$ 100 mais caros. O mercado de smartphones encolheu 20% no terceiro trimestre (Counterpoint), mas a Apple ganhou share — de 18% para 22%. Se a elasticidade-preço segurar, a receita compensa a margem. Se não, o guidance de 45% pode ser otimista.